
Dizem que ariano é teimoso. Eu, como uma boa ariana do dia primeiro de Abril, diria que somos... persistentes. ;)
Mas qual a diferença entre a teimosia e a persistência?...
Pra quem vê de fora, somos teimosos quando insistimos num erro, ou quando afirmamos algo que todo mundo sabe que, na verdade, é o contrário. Mas e se o mundo estiver enganado e a nossa afirmação for enfim comprovada? Mas e se o nosso “erro” um dia render bons frutos? E se um dia nossa insistência no que todos pensavam ser um erro alcançar um grande resultado? Aí fomos persistentes! Enquanto não chegarmos ao que almejamos com nossa persistência, somos só teimosos...
O pianista João Carlos Martins, depois de ter o movimento das mãos e dos dedos comprometido por uma sucessão de acidentes, tornou-se maestro.
Tive também a oportunidade de ouvi-lo dizer, quando alguém exalta seu retorno ao piano como um grande feito de superação, que, na verdade, é só teimosia. Não sei se nosso querido maestro, e pianista, é ariano, Mas sei é que ele me deu uma boa idéia...
Meus amigos mais próximos sempre souberam de uma das atividades que eu desenvolvia paralelamente à música. Desde muito pequena, logo que comecei a enxergar, lá nos meus dois ou três anos, eu amava desenhar! Passava horas colada no papel, pra minha visão limitada alcançar alguma coisa, e desenhava pessoas imaginárias, desenhava situações, desenhava multidões, desenhava praias cheias de gente; sempre gente, sempre gente.

Um dia a visão se apagou. “É porque a vida não quer mais que você desenhe” sentenciariam os mais fatalistas. Mas na mente continuei desenhando, e nos meus sonhos noturnos também. Embora soe contraditório, sempre fui uma pessoa bastante visual. E as imagens continuam vivas e fortes em mim, e o impulso criativo de gerar imagens no papel também. O que eu posso fazer? Por um tempo lamentei. Mas um dia, numa sessão com uma psicóloga da Fundação Dorina Nowil para cegos, ela me surpreendeu:
-Faça um desenho pra mim.
-Hem? A senhora está falando comigo ou tem mais alguém na sala?
Ela me mostrou uma prancheta de madeira, revestida de um tipo de tela de janela. O papel é colocado em cima e, quando riscado, a tela se encarrega de fazer o relevo. Adorei a brincadeira, não queria sair de lá, fiz um monte de desenhos. Quando cheguei em casa e contei pra mamãe, ela se lembrou de algo que tinha havia anos guardado, sem utilidade. Ela me deu uma borracha de desenho tátil, um aparato que faz a mesma função da prancheta revestida de tela. É uma borracha bem maleável, de um dedo de espessura, e do tamanho exato de uma folha A4, que veio lá da Espanha, de uma associação de cegos de representatividade internacional, a ONCE.
Munida de meu aparato internacional, comecei a treinar. Claro que o novo método tem suas limitações e o relevo não comporta todas as técnicas que eu usava antes. Mas, como sou uma ariana teimosa, ops, persistente, sigo insistindo enquanto isso me der alegria.
E bons frutos já apareceram bem cedo. Os sobrinhos Giulio e Pietro, lá da Itália, que também adoram desenhar, sempre mandavam desenhos pra tia Sara, pra vovó e pro vovô aqui no Brasil. Um dia minha irmã teve que contar a eles que a tia Sara não podia mais ver os desenhos. Então os três juntos desenvolveram a técnica da cola; minha irmã passava cola branca nos contornos dos desenhos deles, e a cola, quando seca, faz o alto relevo. Depois os meninos ainda gravavam arquivos de áudio descrevendo os próprios desenhos e contando a cor que usaram em cada elemento, em cada florzinha, em cada peça de roupa dos bonequinhos. Depois eles descobriram uma técnica menos trabalhosa, descobriram que desenhar com o papel sobre uma manta, sobre a mesa, dá um relevo legal, até parecido com o da borracha de desenho tátil. Enquanto isso, daqui fui desenvolvendo minha nova técnica e passei a enviar desenhos pros meninos também, voltando a me comunicar com as crianças por mais essa linguagem, universal. Só que, ao contrário dos desenhos dos sobrinhos, os desenhos da tia Sara não chegam coloridos... Peraí, gente, vamos com calma! Pintar sem enxergar já é teimosia demais! :D E, como teimosia aqui é o que não falta, vou até tentar.
Mas, enquanto isso, proponho aos meninos uma parceria: eu desenho e eles pintam. E assim seguimos, nessa interação gostosa e criativa. O desenho da sereia no início do texto é um exemplo da parceria Tia Sara-Pietro Cernusco!
Abaixo, alguns dos desenhos antigos pra vocês! Sei que ainda falta um pouquinho pra eu chegar de novo no nível de detalhes que eu fazia antes, mas aqui tem persistência de sobra, e eu chego lá!