quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Comendo no escurinho

Sara, com cara sofrida, pano de prato no ombro, mão na testa, mexendo um macarrão no fogão.
Sara, sorrindo feliz, mexendo o mesmo macarrão no fogão.
Um bicho de 7 cabeças? Que nada, vai? Só alegria!

Amigos, colegas, seguidores do Boca e famintos de plantão! Há uns meses contei aqui como andava minha reaproximação de algo que por um momento me pareceu monstruoso, mas algo tão essencial em nossas vidas quanto o ar que respiramos: o fogão. Listei os pratos que na época eu já havia reaprendido a fazer, e a lista não preenchia uma ínfima linha... :) De lá pra cá, estou ficando cada vez mais amiga do fogão, meu repertório culinário tem crescido e, o mais importante, até que tem agradado. Afinal o que é quantidade sem qualidade? E para comemorar os pequenos progressos e compartilhar essa alegria com os amigos, estou organizando para o início do ano o “Comendo no Escurinho”. Calma, gente, calma que eu explico: eu, euzinha vou preparar um jantar (vegetariano, claro) e oferecer aos amigos mais corajosos em minha casa. O cardápio será simples, mas com direito até a sobremesa! Os carnívoros podem até chegar com um certo preconceito, mas garanto que vão sair nem sentindo falta dos bichinhos. E tem mais um detalhe, que termina de explicar o nome do evento: todos terão que comer vendados. É isso mesmo: todos iguais! Gente, restaurantes totalmente escuros e com garçons todos cegos já existem faz tempo em países de primeiro mundo, e este ano a moda já chegou até em Brasília! O aroma e o sabor da comida recebem muito mais atenção dos nossos sentidos, por nossa visão não estar distraindo o cérebro com zilhões de informações ao mesmo tempo. Para quem não tem muita prática, recomendo não vir de branco e trazer um babadorzinho caso se deseje sair limpo... :D E, como sou uma amiga fofa, vou até deixar os amigos queridos comerem em pratos fundos e, quem sabe até pico a salada pra eles! Os amigos que não vierem por motivo de lonjura maior, não fiquem tristes, contarei tudo aqui depois, e com direito a foto dos micos e tudo mais! Aguardem!
Abaixo, eu e os 3 corajosos que provaram do meu espaguete ao shitake no último domingo: meus primos tão queridos Carol Bentes, Aline Bentes e Carlos Augusto Bentes, que trouxeram, além de seus estômagos Bentes (sempre prontos pra atacar), muita, mas muita alegria, e gargalhadas de deixar o diafragma dolorido até o dia seguinte. Amo vocês, primos lindos!

Quatro Bentes sorridentes à mesa

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Escola de artistas

Existe uma arte que não usa pincel, não usa instrumentos musicais, nem palco nem livros. É uma arte muito simples, que não requer nenhum acessório ou espaço específico, e, ao mesmo tempo, é tão minimalista quanto uma composição para orquestra. Uma arte silenciosa, e tão essencial quanto qualquer outra, e que não adianta procurar escolas onde aprendê-la, não, você não vai achar. Mas te dou uma boa notícia: você nem precisa investir o seu dinheiro no aprendizado desta arte, a escola está aí, bem aí na sua frente, exatamente agora, neste momento, e em qualquer outro. A arte é sorrir às seis horas da manhã, apesar de todo o sono e a correria, é sorrir pra você mesmo, e pra quem quer que cruze o seu caminho até o trabalho; a arte é ouvir quem conversa com você como quem ouve uma música, é esperar seu interlocutor concluir sua frase, é beber cada uma de suas palavras, ainda que ao mesmo tempo briguem por sua atenção os anúncios comerciais, cartazes, letreiros, roupas ou carros bonitos; a arte é estar atento aos outros na calçada e oferecer uma mãozinha a alguém que pareça precisar de uma ajuda pra atravessar a rua por exemplo; a arte é fazer sorrir ou rir seu colega de trabalho, seu companheiro de vida, seu irmão, seu filho; a arte é se lembrar de agradecer, mesmo que intimamente, sempre que vier a vontade de maldizer e reclamar; a arte é desenvolver a própria criatividade e inventar com seu filho uma brincadeira nova na banheira para convencê-lo a tomar o banho, é montar sobre a comida dele uma carinha, de olhinhos de azeitonas, antes de perder a paciência e desistir de fazê-lo comer; a arte é olhar para todos do seu grupo, e não só para aqueles que se destacam por seu carisma e beleza; a arte é homenagear quem está do seu lado, ou esteve quando você mais precisou, com um presente feito por suas próprias mãos, por seus próprios dons; a arte é dizer o quanto você admira uma pessoa e suas atitudes antes que seja tarde demais; a arte é olhar atentamente pra você mesmo, com a mesma profundidade que deseja conhecer aquele que é alvo de sua paixão; a arte é olhar para toda essa festa de cores e luzes de Natal, e presentes, e apelo comercial, e correria, e investimentos além do permitido, e enxergar o que realmente importa.
Que as datas festivas nos tragam muita alegria sim, mas a alegria consciente, genuína, a alegria de nos sentirmos no caminho certo, a alegria de nos sentirmos úteis neste planeta, a alegria de nos sentirmos úteis a alguém, a alegria de nos sentirmos em paz com todos aqueles que amamos, a alegria da comunhão com nossos amigos e com a natureza, a alegria dos desafios vencidos, a alegria de plantar uma árvore, de plantar arte, a alegria de comemorar uma boa notícia. E se o mundo não te dá boas notícias, produza você uma notícia maravilhosa! Um Natal e um novo ciclo lotado de arte para todos nós, lotado de música, teatro, literatura, dança, cinema, fotografia, boas notícias, e também cheio dessa arte da atenção, da gentileza, do sorriso, do foco no essencial e no positivo, a arte de se relacionar, a arte de ser humano.


No centro, menininho sorridente surgindo de dentro de um balde e segurando outro sobre a cabeça. Em volta, imagens menores do mesmo menino em 5 diferentes momentos de brincadeira com os dois baldes.

Giulio Garrone, meu sobrinho mais velho, aos 3 anos de idade, em ensaio fotográfico com os baldes. :)


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Detector de Olhar

Ela só veio ajudar. A tecnologia veio diminuir distâncias, aproximar países, melhorar e muito a qualidade de vida das pessoas. Acontece é que nem sempre permitimos que ela cumpra seu papel positivo, e em vez de aproximar ela isola, em vez de melhorar ela dificulta. Bom, mas este não é o foco dessa conversa. Aliás, focar é o que quero. Voltando à tecnologia, o que dizer então das barreiras que ela derruba para as pessoas com deficiência. São os sintetizadores de voz para ler a tela, mouses especiais, bonés com detector de obstáculos na altura da cabeça, cadeiras de rodas movidas a sopro pra quem não mexe os braços, aparelhos auditivos. Quanta gente não veio me contar da reportagem que mostrou, exatamente na época do meu apagão, uns óculos que devolvem a visão, ainda em preto e branco, por meio de um pequeno aparato em contato com a língua! Uma bizarrice assim. Minha irmã, antenada com as novidades da Europa, já me contou de uma versão mais evoluída: uns óculos que, por meio de um chip implantado no cérebro, permitem a visão colorida. Enquanto o invento em testes não chega por aqui, e por um preço acessível (sonhar ainda está saindo barato...), eu me contentaria com óculos diferentes, e certamente menos custosos. Tudo o que eu quero são óculos que me dêem um alerta, de preferência vibratório (pois de apito o mundo já está cheio), sempre que outros olhos estiverem pousados nos meus; sim, óculos detectores de olhar, que sinalizasse pupila com pupila, que me informasse que a qualquer distância tem alguém me olhando nos olhos. Porque quero retribuir, porque quero acolher com um sorriso, porque preciso saber se estou sendo encarada de frente (pleonasmo proposital), porque quero saber se meu interlocutor está focado em mim, porque não quero falar olhando para o nada. Se a briga é por direitos iguais, se nós, que não enxergamos, temos o direito de também ler todos os textos do mundo, e pra isso o Braille, os leitores de tela, os mini scanners de mão com sintetizadores de voz, que ainda chegarão no mercado, por que não teríamos o direito de ler os olhares? Esses nossos tempos que carecem tanto de conversas sinceras, esses nossos tempos corridos que quase não dá tempo de sentar com uma pessoa querida só para conversar, olhos nos olhos, esses nossos tempos em que a tecnologia- (opa, olha ela aí de novo!), pois é, a mesma tecnologia que veio aproximar, fechou as pessoas em seus netboocks, celulares, i-phones. E aí, cada vez mais conectadas com o mundo, as pessoas se desconectam do que está tão perto, do que está diante do seu nariz, do que está ao seu lado. “Do que está ao lado? Tem alguma coisa ao meu lado? Ah, sim, tem alguém ao meu lado.” E olha que engraçado: para se sentirem menos sozinhos em suas ilhas tecnológicas, os seres humanos tentam humanizar a tecnologia; as vozes sintetizadas são cada vez mais humanas e expressivas, atendimentos eletrônicos cada vez mais interativos e inteligentes (embora com sérias limitações auditivas na maioria dos casos: “Não entendi.” “Qual o nome que você disse?”). Enfim, se para qualquer pessoa tem sido raro os olhos nos olhos, para quem não enxerga este contato não existe, e eu sinto falta dele. As conversas já são tão distraídas, são tantas as ofertas e chamados por toda a volta; a concorrência é desleal: é a televisão com sua velocidade alucinante, são os letreiros com luzes e cores bem mais interessantes que as nossas, é o celular que vibra no bolso só pra avisar que a bateria está fraca ou pra fazer um lembrete qualquer, é a peripécia de um outro motorista no trânsito caótico, é a figura exótica ou o modelito ousado de uma lambisgóia qualquer; tudo grita por atenção, tudo se fabrica para atrair o maior número de olhares possível. E assim fica difícil saber quando o foco está em você, que está falando e falando. E se você não pode ver onde estão os olhos de seu interlocutor, piorou. Assim como um “entendo” ou um “hum” não são garantia de atenção, o olhar somente também não diz tudo. Posso estar de olhos fixos em você e pensando no capítulo de ontem da novela. Mas juntando minha audição, com my Glasses look detector Vibrator Taba-Sara, mais minhas outras formas de perceber o outro, minha comunicação pessoal estaria muito melhor estabelecida. Claro, para quem não enxerga, as conversas fluem melhor num ambiente mais calmo e silencioso. Mas é que diálogos espontâneos, e muitas vezes os mais longos e preciosos, surgem a qualquer momento, qualquer local. Não dá pra marcar hora nem lugar silencioso pra contar o que acabou de me acontecer, pra contar o que senti agora, pra contar uma idéia que acabei de ter ou algo que acabou de me encantar.
Com meus óculos vibratórios eu poderia não só estar mais confiante em um diálogo, mas também me faria feliz ter a autonomia de buscar e encontrar o olhar de alguém, e me fixar nele, e procurar por outro ângulo se a pessoa fugir o olhar de mim, e brincar de bater um sério, e paquerar (é claro que as piscadelas também seriam sinalizadas, breves interrupções na vibração dos óculos as revelariam). Vibro inteira só de imaginar como é sentir de novo que alguém tem os olhos nos meus olhos. Mesmo que por vezes fosse inevitável a sensação de ter um celular em desatino vibrando sem parar na cabeça, como resposta a uma longa troca de olhares, vou seguir sugerindo o invento. Se já temos câmeras fotográficas detectoras de sorriso, não devemos estar longe da minha idéia.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O que você me mostraria?

Sara com giulietro - um girassol sorridente de pelúcia - em sua cintura, sorrindo para ele


Chegamos no evento. Uma amiga querida, cheia de boa vontade, descrevia pra mim o estande onde nos instalávamos, ela falou do chão cinza, de um único banco disponível, bem alto, do monte de fios pelo chão; mostrou-me os limites do estande, apertadinho, depois as “paredes” e as “mesas”, estruturas de um firme papelão, (o evento tratava de sustentabilidade) e que bambeavam a um simples esbarrão. Eu deveria ter cuidado aqui, cuidado ali, com os fios espalhados pelo chão, com as bolsas de todos do grupo acomodadas junto ao banquinho, com as mesas e paredes sustentáveis, que não se sustentavam muito bem. “Melhor então nem me mexer” pensei, desanimada. Minutos depois, uma outra amiga chegou, e disse entusiasmada: “Sara! Você viu os girassóis que tem aqui?” Girassóis? Ela me puxou empolgada e me fez tocar enormes girassóis de verdade num canteiro que delimitava o mesmo estande. Tudo mudou!

O olhar é uma escolha. E você? O que seus olhos me mostrariam primeiro?


Para celebrar o olhar positivo, o olhar da beleza e do encanto, aí vai um presentinho pra vocês: o vídeo de uma canção composta por mim ano passado, com direito a tradução em Libras, desenho e muita poesia. Assistam a um dos vídeos mais lindos produzidos pela Vez da Voz! Com vocês, Gira e Só.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nasce e renasce

Sempre fui meio apegada a datas: “Hoje está fazendo um mês que cantei em tal lugar, amanhã faz um ano que conheci fulano, ontem fez quinze dias desde aquela festa...” Isso é bom, acaba me fazendo lembrar com facilidade os aniversários das pessoas queridas e outras datas importantes, mas por outro lado... datas de acontecimentos desastrosos também são lembradas. No dia em que minha visão se apagou de vez, intimamente pensei: “Todos os meses, neste mesmo dia, vou me lembrar desse dia e de toda a dor física que veio com ele.” No mês seguinte, inevitavelmente, constatei: “Hoje está fazendo exatamente um mês.” Passaram-se dois meses e lá estava eu de novo: “Hoje está fazendo dois meses.” Quando chegou o aniversário de três meses, cansei, e resolvi ressignificar a data. Então, no dia 6 de Junho de 2010 nasce o Boca no Mundo. E, quando a gente decide ressignificar, os novos significados vêm, e cada vez melhores.

No mesmo dia começava na Oficina dos Menestreis mais um curso-montagem da turma Mix, mas eu não sabia. Apenas uma semana depois foi que fiquei sabendo e caí lá de paraquedas, atrasadinha, eu, Izadora e minha camisa da seleção, como uma fiel filha do Brasil, sem nem saber ainda que peça montaríamos.

Bom, quando o blog fez um mês, lembrei que o apagão fazia quatro meses. Quando o blog fez dois meses, comemorei internamente. Ah, e me lembrei também que o apagão fazia cinco meses. Continuei comemorando os meses de vida do Boca, e quando me dei conta, tinha parado de contar os meses do apagão. E aí, outro dia, quando alguém me perguntou quantos meses já fazia de ausência de visão física, fui recalcular e... wal, dia 6 de Dezembro, dia da estreia do musical Filhos do Brasil com a turma Mix da Oficina dos Menestreis, faz exatamente nove meses; e está nascendo um bebezão lindo!

Hoje só tenho a comemorar, e uma emoção diferente me ilumina por estrear com uma galera cheia de energia e que só veio colorir este meu ano com muita alegria, paixão e ensinamentos. Foram dois meses de curso e quatro de montagem, com muito trabalho, esforço, diversão e bengaladas nas rodas das cadeiras! Quero agradecer aqui a Ana Paula, Tabs, Vans, Ceci, e cada um dos veteranos menestréis que me acolheu em sua casa, em sua amizade, em sua confiança, a Sandrinha e cada um que me fez companhia nas idas e vindas de metrô e nos banquinhos e lanchonetes do terminal Tietê na espera do meu Ônibus de volta pra casa, à Aninha, Ju, e todos da equipe, que unem o amor à arte à vontade de ajudar e estão com a gente, prontos pra qualquer parada, a Dulcinha, Gui, Cleu, e todos que me ensinam tanto sobre superação e esforço, a todo o pessoal da banda, ao Deto, Evelyn, Pat, Rica, Léo, pelo carinho e pelos desafios jogados na minha mão, pelas grandes ideias, por acreditarem na gente e por desenvolverem trabalhos como este. É muito bom estar com vocês e ser uma nova menestrel! Amo vocês! Ah, e merdão pra nós!!!

E quanto ao Boca, seis meses de vida; parabéns, e obrigada a vocês, queridos leitores, que dão a ele todo o sentido! A participação, os comentários, o incentivo, as sugestões são sempre muito importantes! Obrigada, obrigada, obrigada!! Meus beijos e abraços do tamanho do mundo



Elenco do musical Filhos do Brasil durante ensaio no palco

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Prêmio Absurdo da Semana

“Nossa Senhora do serrado, protetora dos pedestres que atravessam o Eixão às seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da Noélia!” Essa deliciosa música-oração, praticamente escondida em um dos CDs da Legião Urbana, eu ouvia muito na minha adolescência. E escutá-la ali, na terra do Renato, ao fim do filme BRAXÍLIA no Festival do Cinema de Brasília, fez lembrar dele e sua imensa força, sua imensa voz celebrada por geração após geração até hoje, fez lembrar dos difíceis tempos de adolescente, fez lembrar da cumplicidade com minha irmã, quem me ensinou a gostar daquela voz, e me fez chorar. Assim parecia terminar mais uma semana de aventuras sexta passada, mas na verdade ela ainda se findaria com mais fortes emoções...
Semaninha agitada, pessoal, em que descobri como estar em 3 estados e 5 cidades entre segunda e sexta-feira. Pois é, levada pelo trabalho, pela arte, por minha missão, consegui esta façanha. E, nessas andanças em rodoviárias, aeroportos, metrôs, passei pelas mãos dos mais diversos guias: funcionários, aerotios, passantes, anjos bons; além de ter reencontrado queridos amigos antigos e feito novos. Por onde andei e o que andei fazendo? Bom, eu precisaria de mais inúmeras postagens pra contar com os merecidos detalhes todos os eventos, todos os encontros, todas as viagens e histórias da semana, que não foram poucas. Mas destaco aqui algumas das situações mais marcantes, seja positiva ou negativamente.
Comecemos então, senhoras e senhores, pelos destaques que concorrem ao “prêmio ABSURDO da semana”: em plena segunda-feira, próximo a um estúdio de som no Rio de Janeiro, encontrei meus amigos músicos Júlio Ribeiro e Luiz Otávio, ambos colegas de apagão. Eu acabara de chegar de Volta Redonda e puxava minha mala de rodinhas. Éramos então três cegos e uma mala rua afora procurando a entrada do estúdio. Ninguém parecia passar na rua para pedirmos ajuda. Julinho telefona para dentro do estúdio e pede orientação, dizendo que somos cegos e que precisamos de ajuda; e o amigo do outro lado: “Tu segue um muro branco até o final e vira à direita.” Bacana! Então a gente espera passar alguém e não pergunta onde é a entrada do estúdio, a gente pergunta se aquele ali é o muro branco. Hehehe! Depois, concorrendo ao mesmo prêmio, vem a rodoviária de Campinas, já citada aqui no Boca como mau exemplo de colocação do piso tátil. E adivinhem o problema agora: ele próprio outra vez. Eles lá planejaram um belo natal para seus usuários, com lindas bolas e luzes coloridas e enfeites que inspiram os melhores votos natalinos, paz e felicidade a todos os viajantes. Mas talvez a mesma felicidade e paz não sejam possíveis à árvore de Natal e ao pobre do Papai Noel enorme instalados BEM no meio do piso tátil... Nessas horas eu queria até enxergar pra ver a cena comédia pastelão do cego caminhando cheio de pressa por sua pista tátil e, com sua varinha mágica, botando pra dormir papai noel, árvore, pisca-pisca, melhores votos, paz, felicidade e estrela de Belém. Que tristeza... Isto foi na quarta-feira, e no sábado, após ter presenciado uma aerotia do Aeroporto Internacional de Brasília pedir informações sobre a minha pessoa à minha acompanhante e não a mim, julguei completa a lista de micos candidatos ao prêmio, mas, pra minha surpresa, o vencedor ainda estava por vir... No mesmo dia, já em São Paulo, eu e minha amiga Tábata Contri dávamos um passeiozinho gostoso de carro no fim da tarde. Paramos em frente a uma loja de fantasias, cheia de degraus na entrada. Minha amiga é usuária de cadeira de rodas, e eu, uma mera aprendiz no apagão; a única solução que vimos naquela hora foi tentar fazer com que a atendente viesse até nós. Do carro, gritamos, gritamos, chamamos, e demorou até que uma senhora se convencesse de que não se tratava de uma molecagem e fosse até a porta. Ainda de longe, Tábata explicou a situação. Com muita má vontade, a senhora veio nos atender na calçada. Sem nenhuma vontade de vender, forneceu a Tábata as informações solicitadas sobre determinados itens da loja. “Sua loja tem muitos degraus, moça- dizia Tábata –e se eu vier experimentar essas roupas? Terei que trazer um homem bem forte?" e a mulher respondeu sem nenhum pesar: “É, só se for.” Fala sério, minha senhora, é por causa de criaturas como você que precisamos de leis e fiscalização dura pra tornar nosso país acessível, porque para as pessoas sensíveis e criativas, basta se esbarrar no problema para se pensar na solução. E, empatado no primeiro lugar com esta mulher, está o homem que, horas depois, bateu no carro em que estávamos e não fez nem menção de parar. Nosso anjinho da guarda é muito bom e ninguém se machucou, mas agora a motorista, cadeirante, precisa sair pelo banco do carona porque sua porta não abre devido à pancada e tem um carro amassado. Nota ZERO pra você, meu amigo.
Graças a Deus, a semaninha também foi recheada de atitudes louváveis, mas estas, concorrentes ao “Troféu ARRASOU” DA SEMANA, DEIXO PARA A PRÓXIMA POSTAGEM. Aguardem, comentem, fiquem bem!


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Teatro dos Sentidos

Uma experiência inesquecível... Hoje, por força desses encontros mágicos do destino, conheci o Teatro dos Sentidos, e assisti à peça encenada por eles: Feliz Ano Novo. Nem sei se posso dizer que “assisti”, talvez eu possa dizer, assim como todos da plateia, que participei da peça Feliz Ano Novo. É isso mesmo, o grupo teatral do Rio de Janeiro Teatro dos Sentidos, dirigido pela atriz e escritora Paula Wenke, desenvolveu um trabalho voltado especialmente para a tchurma do apagão, mas quem enxerga é igualmente bem vindo na plateia e, com uma venda nos olhos, tem a oportunidade de mergulhar no espetáculo da mesma forma que nós, deleitando-se com todos os outros sentidos fora a visão. Sim, todos mesmo! E as surpresas que tive com meus outros sentidos sendo provocados foi um dos pontos fortes da minha imensa emoção. Primeiro me surpreendi ao sentir os aromas de elementos presentes na narrativa. Logo depois, qual não foi minha surpresa quando os personagens compartilharam com a plateia comidas que compunham a cena, como biscoitos de chocolate, pipoca salgadinha (e eu sonhei pelo resto da peça com aquela bacia de pipoca passando de novo pela minha mão... ), e até champanhe para comemorar com eles a virada do ano. No carnaval da história, confetes e cerpentinas eram jogados abundantemente sobre nós, como uma chuvinha gostosa de alegria e surpresa. Sons dos mais variados tipos, produzidos pelos atores bem próximo da plateia, assustavam, emocionavam, faziam rir, criavam ansiedade, acariciavam, e sobretudo nos levavam para dentro das cenas. Esses sons e mais duas narradoras complementavam nosso imaginário com todas as informações necessárias para a total compreensão da trama, como uma espécie de audiodescrição, bem interativa e particular. Claro que a música também marcou presença, desde o começo, mas de repente um violino tocado ao vivo chegou surpreendendo e rasgando a emoção. Situações divertidas, comoventes, românticas, lúdicas e até de extrema tensão, como o naufrágio de um navio, foram vividas por todos nós.

Os textos e poemas de Paula, junto à brilhante atuação de todos os atores, inclusive mirins, conduziam com encanto aquela experiência inédita e inesquecível. Depois de comer, beber, rir e chorar (bastante...), ser convidada a acariciar o rosto de um personagem, sentir brisa, sereno, interagir com os bichos de uma fazenda, participar de um naufrágio, de um carnaval, de um reveillon, ouvir de perto o canto dos atores, recebi uma rosa, de verdade e sem espinhos. Despetalei-a inteira, enquanto transbordava de mim tudo aquilo intimamente mexido e tocado por aqueles carinhos que chegaram na alma através dos sentidos. As pétalas se soltavam entre meus dedos uma a uma à medida que se desenrolava o fim da peça, aquele auge de bagunça gostosa nas lembranças mais profundas, conscientes e inconscientes, quando todos os sons, todos os cheiros, todas as texturas já experimentadas durante o espetáculo, agora nos provocavam todos de uma vez, passeando entre a plateia, passando bem perto, afastando-se, como num sonho louco, como num momento especial da vida em que se repassa na mente as vivências mais marcantes. Depois de tanta emoção, derramei minhas pétalas sobre a Paula, foi minha homenagem e meu agradecimento.

Tudo isso aconteceu esta tarde na Ilha d´água, num evento interno da Petrobrás, em que participei cantando. Ao deixarmos a ilha, numa grande lancha, fomos todos juntos: eu, o violonista que me acompanhou, meu querido amigo Júlio Ribeiro, funcionários da empresa e todo o elenco da peça. Quando eu entrava na embarcação, uma vozinha gentil e acolhedora me ofereceu ajuda antes de qualquer outra; o dono da voz pegou-me pela mão e me orientou para sentar ali, num lugar vago ao seu lado. Na confusão do momento agitado, nem pude reconhecer a voz e nem perceber o tamanho daquela mãozinha, só depois que me acomodei no banquinho foi que descobri que quem estava ao meu lado e me ajudara com tanta naturalidade era o ator mais jovem do elenco, Yorran, de 10 anos de idade. Batemos um papão, e mais lindo que ouvi-lo falando sobre o público alvo daquele espetáculo, as pessoas com deficiência visual, falando sobre inclusão, foi ver e confirmar mais uma vez que projetos como este deixam suas marcas em quem assiste, em quem atua, em quem promove, em tantos quantos estiverem envolvidos. No desembarque, Yorran foi quem de novo fez questão de me ajudar e me guiar até a terra firme. No caminho mostrei a ele que o perfume da rosa ficara em minha mão, e continua até agora. Que o perfume da sensibilidade, da inclusão, das grandes ideias, fique nas mãos, na alma, na vida de todos , e que o Teatro dos Sentidos possa deixar seu rastro bom nos caminhos de cada vez mais plateias!

Feliz Ano Novo está em cartaz na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro até o próximo domingo, dia 28. Já é a segunda temporada do grupo na Caixa; a primeira fez tanto sucesso que foi preciso repetir a dose. Divulgue, convide seus amigos e confira! Na verdade a maior parte do público que tem comparecido não tem deficiência visual, e todos saem maravilhados com a experiência multi sensorial.


Paula Wenke e atores do Teatro dos Sentidos
Teatro dos Sentidos - Feliz Ano Novo
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Av. Almirante Barroso, 25 - Centro
Tel.: (21) 2544-4080
Data: 23 a 28 de novembro de 2010
Horário: 19h30
Valor: R$15 (inteira) e R$7,50 (meia)
Capacidade: 150 lugares mais 4 para cadeirantes
Acesso para portadores de necessidades especiais
Classificação etária: 12 anos

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Filhos do Brasil

Pessoaaaaaal! Está chegando! Como muitos sabem, desde Junho deste ano estou na Oficina dos Menestréis, em São Paulo; entrei num curso/montagem da turma Mix Menestréis, que é formada por cadeirantes, colegas de apagão, pessoal da baixa resolução de imagem e mais todo tipo de malacabado! Ah, e tem até uns pessoal estranho também, que não tem nenhuma deficiência (aparente... ;) ), e desde Agosto estamos montando o musical Filhos do Brasil, de Oswaldo Montenegro, sob a direção de Deto Montenegro e seus assistentes Rica Santana, Léo Pinheiro, Patrícia Kfouri e Evelyn Klein. E eu estou aqui pra convidar todos vocês para irem conferir o resultado deste belo trabalho de meses no Teatro Dias Gomes, em São Paulo, dias 06, 07, 13 e 14 de Dezembro, sempre às 21:00h.
A Oficina dos Menestréis fez uma parceria com a ONG Vez da Voz e, pela primeira vez, oferece áudio descrição, para pessoas com deficiência visual, e interpretação em Libras-língua brasileira de sinais, para as pessoas surdas. Os dois recursos, que ficam por conta da áudio descritora Bel Machado e do intérprete de Libras Fabiano Campos, serão oferecidos no dia 13. O teatro também é completamente acessível para pessoas com deficiência física.
O musical, encenado por um elenco extremamente carismático, fala das mais diferentes misturas do nosso país, com muita dança, cantoria, textos e poemas; grandes músicas de Oswaldo, como Celeiro e Léo e Bia, também compõem o espetáculo. E eu não estarei só cantando, sou menestrel também! Boas risadas e fortes emoções estão garantidas para o público!

O teatro Dias Gomes fica na rua Domingos de Moraes, a cinco minutos da estação de metrô Ana Rosa. Ingressos a R$20,00 (vinte reais) comigo ou na hora (sendo a segunda opção a mais arriscada delas... a Oficina dos Menestréis costuma lotar suas sessões). Pessoal de Volta Redonda e redondezas, quem se interessar em ir, entre em contato comigo, estamos organizando transporte!
Mais informações sobre a Oficina dos Menestréis em www.oficinadosmenestreis.com.br

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sem Perder o Foco

Sara e Rafaela Sessenta, intérprete de libras, em gravação no estudio do Telelibras.
Entrevista marcada. Você se programa, prepara seu ambiente, pensa no que vai dizer sobre seu trabalho ou sua instituição, o que precisa divulgar, e enfim chegou a hora, a equipe do telejornal chega, com cinegrafista, diretora, intérprete de Libras e... uma repórter que não enxerga? Como assim? Aí você pensa que se enganou, ou que se esqueceu que na verdade a entrevista era para a rádio, e não para a televisão, afinal repórteres e apresentadores cegos trabalham em rádio, não na televisão. Mas espera aí, tem um cinegrafista na equipe; então é isso mesmo: televisão. E o entrevistado se faz mil perguntas em pensamento: “Mas como vou falar olhando pra ela sendo que ela não me vê? Como ela vai saber onde é minha boca pra botar o microfone pra mim? Como ela vai ler o TP na hora de apresentar o jornal? Como ela faz pra olhar para a câmera se ela não vê?” A surpresa e as dúvidas são comuns entre as pessoas que me vêem chegar com o microfone do Telelibras na mão para entrevistá-las. Pois é, essa repórter e apresentadora sou eu, então não há pessoa mais indicada pra contar pra vocês uns segredinhos e revelar como tudo isso pode funcionar. Vamos lá!
Há mais de 3 anos eu era apresentada ao Telelibras (botar link pro texto sobre o telelibras no blog), como já contei aqui. Eu tinha baixa visão e entrei no telejornal como repórter especial, gravando externas na rua, entrevistando pessoas interessantes e dando dicas de cultura, cidadania, acessibilidade, enquanto as matérias de estúdio eram gravadas por jornalistas sem deficiência. Pra mim era fácil seguir a luz da câmera, principalmente em ambientes mais escuros, onde ela se destacava. Direcionar o microfone para os entrevistados também era moleza. Papel escrito pra me orientar quanto as informações do entrevistado já não me servia, mas memorizar pra mim nunca foi problema, então eu decorava tudo. Coisa de um ano depois, fui promovida a apresentadora, inaugurando a presença de apresentadores com deficiência também no estúdio do Telelibras. Bom, agora as matérias eram maiores e a linguagem mais formal, nada de improviso, os jornalistas liam os textos todos no TP. Sem problemas, exercito mais um pouquinho a memória e levo meus textos decorados. Assim fiz por um bom tempo. Só que o jornal foi crescendo e a quantidade de textos por jornalista aumentando; e aí eu precisava escrever meus cinco ou seis textos, mandar para a revisão, receber os textos de volta, fazer os ajustes solicitados, e acabava me sobrando muito pouco tempo pra estudar e decorar tudo aquilo. O Telelibras ainda não é um telejornal diário, e veiculamos notícias frias, por isso gravamos num mesmo dia vários textos de uma vez, pra ir soltando aos poucos. Então, gravar seis textos decorados, um atrás do outro, começou a me embananar.
Um belo dia, em casa, veio a idéia, que não sei por que não veio antes: E se eu aproveitar a técnica que já uso em casa informalmente há anos? Desde que comecei a usar o computador, sempre com os leitores de tela, lá nos meus 12 anos, brinco de ponto eletrônico, ou seja, ouço a voz sintetizada aqui do computador lendo um texto e falo em delay, como um eco, reproduzindo em voz alta exatamente o que acabei de ouvir no fone de ouvido um segundo atrás. Sempre achei tão bonito uma pessoa lendo pra outra; e eu, como não podia ler com os olhos, fui me acostumando a este método quando queria ter o gostinho de ler em voz alta pra alguém. Os sintetizadores de voz podem ter a velocidade, volume e entonação ajustados a gosto do freguês, então configurei o moço que mora dentro do meu computador num ritmo confortável de acompanhar e fiz o teste. Eu havia feito algo parecido uma vez, quando fui mestre de cerimônias de um evento cujo roteiro não tinha ficado pronto a tempo de eu decorar. Então uma pessoa ficou nos bastidores narrando por um radinho Nextel o que eu deveria falar. Mas agora, no Telelibras, eu ouviria uma voz sintética. Como ouvir uma voz completamente robotizada e narrar com entonação humana? Nessa vida tudo é prática, e com o tempo fui me ajustando e aprendendo a quebrar a frieza e o ritmo retilíneo do amigo falante aqui.
Tudo foi ficando prático e fácil, mas aí veio o “apagão”, e com ele novos desafios... Para a solução do TP nada mudou, até hoje, o fone de ouvido, o moço que mora dentro do meu computador e, claro, o computador, formam meu ponto eletrônico improvisado e são meus companheiros inseparáveis de estúdio. Mas agora não tinha mais como seguir a luz da câmera pra saber onde ela estava, agora direcionar o microfone para o entrevistado no escuro já pareceu impossível. Bom, pelo menos a espuminha que encapa o microfone aliviaria uma possível nocauteada na boca do pobre do entrevistado... :) Nós do Telelibras nunca perdemos as esperanças nem o bom humor, e em momento algum pensamos em desistir, nem da nossa causa coletiva e nem da superação de cada um do grupo; se ninguém nunca ensinou pra gente o melhor método de tornar viável o trabalho de uma repórter e apresentadora cega, a gente descobre! No começo era aterrorizante a sensação de olhar para um ponto fixo no nada sem nenhuma referência de luz ou de som, e enquanto ainda não inventam uma câmera com sinal sonoro, para os treze bilhões de apresentadores cegos mundo a fora se orientarem, o jeito era ficar de estátua, mexendo só a boca, pra não sair da direção que a voz do cinegrafista tinha me apontado antes de começar a gravar. Mas aí eu precisava virar para o lado do entrevistado e quando eu voltava a olhar a câmera... cadê a câmera? Era impossível voltar a olhar para o mesmo ponto, e aí eu concluía a matéria direcionada pra janela, pro cristo redentor, pro Evereste, pra tudo, menos para a câmera. Sugeri então que o cinegrafista desse estalinhos de leve com os dedos abaixo da lente da câmera quando eu estivesse para desviar o olhar dela, mas nada feito, o microfone é muito potente e no estúdio silencioso capta tudo! Já fora do estúdio, nos locais sempre barulhentos onde gravamos, meu ouvido é que não capta nada... Pensemos numa outra solução. Um belo dia ela veio, durante uma gravação de estúdio, trazida pelo Roger Souza, editor e um dos cinegrafistas do Telelibras. Ele posicionou meu pé direito no chão de modo a apontar exatamente para a reta da câmera, e aí, sempre que eu tiver dúvidas de para onde focar o olhar, concentro a atenção na ponta do meu pé e retomo a referência. É como se meu pé apontasse para a base de um poste imaginário, eu visualizo na mente este poste e direciono o olhar para um ponto dele na altura do meu rosto. Sim, é um trabalho de consciência corporal e concentração intensa, e bastante fácil quando se deve conciliar com a atenção no fone de ouvido, na entonação, na respiração, no gestual, na narração e, se sobrar fôlego, na notícia.
Bom, mais um caso resolvido. Agora ainda faltava descobrir como abordar o entrevistado sem golpeá-lo com o microfone, sem olhar para o peito no lugar do rosto, sem dar nenhum furo. A solução veio naturalmente, e pode até soar simpática. Antes da entrevista, e mesmo em alguns momentos durante a gravação, toco o ombro do entrevistado, e a partir da altura que percebo, calculo a direção do rosto e da boca. Pronto, agora era só a prática para deixar todos esses recursos funcionando em harmonia. Microfone, câmera, ponto eletrônico e eu nos entendemos cada vez melhor e hoje dá tudo sempre certo! Mentira! Tem dia que sai tudo errado... Em eventos longos e movimentados o Telelibras conta com o trabalho de dois ou mais intérpretes de Libras, que se alternam ao lado do repórter nas gravações. Ao fim de toda matéria, o repórter se apresenta e apresenta o intérprete ao lado. A repórter da vez era eu, e o intérprete... Hum, o intérprete... depois de umas dez entrevistas, cada uma traduzida por um intérprete diferente, quem era mesmo o intérprete que me acompanhava? O intérprete de Libras em geral se mantém silencioso enquanto sinaliza, então eu não podia me orientar por sua voz. Puxa, se ao menos ele estivesse do meu lado, eu poderia tentar identificá-lo pelo cheiro. Mas não, ele estava à direita do entrevistado, que estava à minha direita. Eu me concentrei em tudo, no foco para a câmera, na altura da pessoa, no microfone, nas perguntas e respostas, tudo fluindo perfeitamente bem numa entrevista riquíssima, até que: “Sara Bentes e a intérprete Rafaela Sessenta para o Telelibras!” Ops, morremos na praia; ouvi a risada do Fabiano Campos, o intérprete da vez, e não acreditei no que acabara de fazer. A Rafaela Sessenta já tinha ido até embora. E aí, tome risadas, e fôlego pra gravar tudo de novo...
O Telelibras e seus profissionais seguem se aprimorando, para atender a um número cada vez maior de pessoas, e hoje já são diversos portais na Internet e alguns canais de TV que transmitem o telejornal mais inclusivo do Brasil. Assista em http://www.vezdavoz.com.br/site/telelibras.php

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Entre crises de rins e de riso

Pessoaaaal! Quinze diazinhos atarantados esses, que nem tive tempo de botar a boca no mundo. Mas cá estou de volta, cheia de saudades e alegria! Dentre outras coisas, estive às voltas com uma situação inesperada, que me trouxe muita dor e me fez ver algo novo dentro de mim, algo que vem se solidificando e tomando forma há algum tempo, algo localizado mais exatamente nos rins. Pois é, eu criava duas pedras preciosas dentro de mim e nem sabia! Gente, e as crianças são grandes... Agora estou aqui, sonhando com um parto tranquilo e pensando nos nomes para as gêmeas. Quando elas nascerem, estou pensando em leiloar; segundo meus cálculos (renais) pode dar uma boa grana! J
As preciosas deram sinal quando eu visitava pela primeira vez uma nova amiga, e dei foi trabalho pra ela e pro pessoal de Pirituba, em São Paulo. Bora para o pronto socorro; e aí foi remedinho na veia pra cá, injeçãozinha pra lá, e a dor e o mal estar foram passando e consegui até andar! É, minha gente, só quem já teve uma crise dessas sabe o drama que ´é... Saímos do PS já dando risada e fazendo piada com os detalhes trash do episódio vivido. No dia seguinte, já em casa, crise de novo e mais um passeiozinho no hospital. Aí sim pude fazer alguns exames, pois até então eu nem havia sido apresentada às duas filhotas, o motivo da dor. O enfermeiro me empurrava na cadeira de rodas rumo à sala da ultrassom e precisou dar uma ré. Automaticamente, apitei: “Pi-pi-pi...” Claro, normas de segurança no trânsito!
-Ora, já está brincando? Então já está boa! disse ele, quase desdenhando da minha dor, obviamente sem poder medi-la.
Na verdade não é bem assim, moço. pensei. Será que ele ainda não sabe que a brincadeira e o riso aliviam a dor e curam? Acho que não, nem ele e nem a maioria das pessoas. Na verdade todos sabem, afinal a ciência já deu conta de explicar toda a química do fenômeno, mas talvez as pessoas apenas não se permitam brincar e rir nos momentos em que mais se precisa. Desde os meus doze anos, gravo e reúno gargalhadas de familiares e amigos. É isso mesmo: eu coleciono risadas, as mais sonoras e espontâneas possíveis. Felizmente, a coleção cresce até hoje, e meu sonho de colecionadora é capturar a risada do Bira, do sexteto do Jô. Algumas gargalhadas infantis da coleção, das mais antigas, hoje ainda vivem com o mesmo vigor, agora em bocas adultas. Outras ficaram apenas no magnetismo da minha fitinha cassete, e nas lembranças de infância de seus donos. Por que só as crianças podem perder o fôlego de tanto rir?
Eu ainda não aprendi a rir alto, como as gargalhadas escandalosas que amo ouvir, mas se tem uma coisa que sempre soube fazer muito bem é rir, e com direito a crises de riso memoráveis. E dentro dessa disciplina, a lição que tenho sido convidada a estudar com capricho é “Rir de si mesmo”. Após vinte e tantos anos de estudo prático, destaco uma frase que resume toda a lição: Quando não tem graça a gente põe! E aí, o gostinho do café, o cheiro bom de um sabonete, a textura do cabelo de alguém que a gente gosta, um raiozinho de sol, uma música cantada com paixão, coisas que já têm graça mas que a correria nos faz esquecer, crescem diante de nossos sentidos e nos divertem como grandes feitos.
Há uns dois meses, topei com Oswaldo Montenegro andando por Ipanema. Fiz questão de abordá-lo e contar a ele que estou na montagem de um dos seus musicais, o FILHOS DO BRASIL, sob a direção de seu irmão, Deto Montenegro. Esses sincronismos do universo... Eu jamais havia esbarrado no moço na vida, e justamente agora eu acabava de entrar na Oficina dos Menestreis e, mais do que isso, estava curtindo tanto o trabalho! Conversamos muito rapidamente e ele concluiu o diálogo dizendo:
-Espero que vocês estejam se divertindo bastante na montagem!
-Não tenha dúvidas disso. respondi feliz.
Esta é a filosofia da Oficina dos Menestreis, e é comum ouvirmos dos diretores e assistentes um “Divirtam-se” logo antes de iniciarmos uma cena ou mesmo um exercício. Quem me vê almoçando no ônibus de viagem pra São Paulo pra ganhar tempo e chegar pontualmente nos ensaios, andando pelas pedras da rua da Alfândega e do SAARA procurando figurino, carregando mochila, mala a caminho do teatro, decorando textos dentro do metrô e me perdendo por vezes num palco que ainda não domino como a palma da minha mão, quem vê todas as dificuldades e desafios de todos os integrantes da Turma Mix Menestreis, formada por cadeirantes, pessoas com deficiência visual e com outros tipos de deficiência física, nos ensaios e em toda a preparação para a peça, pergunta: “Se divertir? Com essa trabalheira toda?” É isso aí: sem ou com trabalheira, o negócio é se divertir! Ninguém nos iludiu dizendo que a vida não seria trabalhosa, e nós topamos o desafio assim mesmo. Então, está feito o pacto, comigo mesma: no que quer que eu faça, vou encontrar ou colocar graça. Se um dia eu esbarrasse com Deus pelas ruas de Ipanema, ou de Pirituba, ou do SAARA ou do fim do mundo, e ele me dissesse “Espero que vocês estejam se divertindo bastante na vida que eu lhes dei para viver”, eu poderia responder por mim, com o mesmo entusiasmo que respondi sobre a montagem: Meu amigo, não tenha dúvidas disso!

Sara em pleno salto no pula pula, com braços e cabelos pro ar, e o sol de fundo

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Desafio da Bailarina

Sara cantando, e Aline dançando na ponta dos pés

Vésperas do Natal de 2007. Quem andava pelo aeroporto internacional de Brasília por essa época provavelmente se deparou com cenas inusitadas: música ao vivo em diferentes pontos do aeroporto, com um belo violão e uma voz feminina, um contador de histórias muito diferente e alto astral, um rapaz que falava, e cantava, com as mãos na língua de sinais ao lado da cantora e uma bailarina pequena e graciosa para completar o show. Tudo isso fazia parte de um presente de Natal que o aeroporto oferecia a seus usuários e funcionários e também parte de uma capacitação para os funcionários de uma determinada empresa para atenderem melhor a pessoas com deficiência. A cantora do projeto era eu, e a bailarina, que por vezes, entre uma dança e outra, enchia de ternura e curiosidade os olhares que a viam passar sentada sobre uma grande mala empurrada num carrinho de bagagem, com seus brilhos, cores e encantos diferentes, era Aline, a bailarina mais linda que já conheci.
Eu estava sozinha no quarto do hotel, mas sabia que já na primeira noite chegariam Aline e sua mãe. Então foi assim, já nos conhecemos compartilhando o mesmo cômodo, trocando histórias antes de dormir, indo tomar café da manhã juntas e nos ajudando mutuamente. No dia seguinte que nos conhecemos, já nos conhecíamos havia anos! Na verdade eu e a mãe da Aline, Dona Eleide, trocávamos muitas histórias e informações de vida, mas Aline, sempre calada, muito quieta, apenas responde o que perguntamos, sem muitas palavras, e de vez em quando manifesta alguma vontade, porém sempre agradece e pede desculpas quando necessário, educada e gentil como uma perfeita bailarina, graciosa em tempo integral. Mesmo falando pouco, ela participa de outras maneiras, demonstra seus afetos de outros modos, e na dança, ah, na dança ela diz tudo, ela diz plenamente o que sua alma quer, ela diz com muita alegria e sorrisos coisas que fazem chorar, ela diz coisas que ninguém nunca havia me dito. No palco e na música ela encontra seu lugar, sua expressão, sua melhor comunicação com o mundo, com os corações das pessoas. Tudo que ela reclama de dor enquanto sua mãe lhe prende os cabelos ou abotoa-lhe o figurino, já esqueceu no momento em que sobe na ponta da sapatilha e se posiciona no palco. A música começa, e ela é só graça e leveza; saltitos, giros, espacatos, tudo com muita alegria e concentração. Por trás, toda a disciplina, esforço, força, equilíbrio e sacrifícios que sabemos que são necessários na vida de uma bailarina. E de vez em quando, algo parece dar errado; apenas parece. Se uma sapatilha sai do pé, ela continua dançando; se o cd pula, ela não para de dançar e logo se ajusta novamente à música; se o dj, desavisadamente, para a música antes da hora, porque o volume dos instrumentos se abaixa na dinâmica da orquestra naquele momento, ela finaliza a dança com um movimento ou postura de fechamento e faz logo seus agradecimentos corporais. E se ela não conhece a música que será tocada ao vivo e não tem uma coreografia montada para a mesma, ela então não dança, é pedir demais de sua capacidade de adaptação e de solução de problemas. Engano nosso... Eu cantava um samba de minha autoria no palco, enquanto Aline se alongava perto da caixa de som; de repente me contaram que ela estava sambando na ponta e improvisando movimentos. Perguntei então se ela gostaria de me acompanhar e improvisar no palco, até mesmo em outras músicas. Prontamente ela disse “sim, quero” e desde então é o que mais temos feito, há quase três anos. Minha música e sua dança tem sido uma combinação que mexe com as pessoas.
Outro dia Aline dançou muito, umas vinte vezes da manhã até a noite. Ao fim da última apresentação, tirou as sapatilhas chorando de dor nos pés. Não reclamou o dia todo e se mostrava completamente disponível quando a chamávamos para mais uma dança. E por isso e por tantos outros motivos essa bailarina me encanta. Eu gostaria de entender como ela consegue me emocionar às lágrimas enquanto dança, mesmo sem que eu possa enxergar seus movimentos. Sim, as pessoas me descrevem os movimentos de Aline, eu já a toquei enquanto ela dançava, já vi seus movimentos de outra maneira, mas sempre que ela dança, perto ou longe de mim, tenho vontade de chorar. E não sou só eu, tantas pessoas por aí a fora, que estão ou não acostumados a assisti-la dançar, pessoas que conhecem ou não sua história, certamente se emocionam. E sua história é bastante interessante; apesar das coisas que contei sobre ela, coisas comuns na vida de uma bailarina, sua história não é nada comum. Aline nasceu com a síndrome de down, e é a única bailarina com esta síndrome que se sabe no mundo que dança na ponta da sapatilha. Ela já dançou em grandes palcos do Brasil e desafia tantos conceitos e tendências de pessoas com síndrome de down. Não tente entrevista-la, conversar com ela sobre arte, sobre dança, sobre filosofia ou mesmo sobre a deficiência dela, nem peça para ela somar dois e dois, mas presencie sua dança e o diálogo estará estabelecido, você ouvirá tanto sobre profissionalismo, disciplina, superação e talento bem aplicado. Quem convive ou tem um pequeno conhecimento sobre a síndrome de down, sabe das limitações do corpo de quem tem a síndrome, como equilíbrio, firmeza, controle de peso e às vezes até coordenação de movimentos. No entanto, quem conhecer a fundo a história de Aline Favaro, que é revelada inclusive num livro escrito por seu pai, João Tomaz, entenderá também que tudo é possível para uma pessoa com deficiência quando existe a aceitação e apoio da família, e que as capacidades e talentos extraordinários estão em todos nós.
Minha amada colega de trabalho e amiga Aline Favaro completa vinte e nove anos no próximo dia 15 de Outubro, e fica aqui parte da minha homenagem a ela. Aline, moça linda que tem medo de altura, e nem sabe que na verdade está mais no alto que todo mundo, obrigada por estar entre nós!

Conheçam mais em http://www.bailarinaespecial.com.br

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Paixão Antiga

Sara Bentes e Jorge Vercilo

É, pessoal, é duro de acreditar que ainda hoje ouvimos histórias absurdas de discriminação contra as pessoas com deficiência. Ontem mesmo ouvi de uma amiga cadeirante uma dessas histórias, de extremo descaso, e até maldade, que ela viveu com a produção do show de um ídolo internacional que esteve no Brasil semana passada. Ainda é tanta ignorância, despreparo e desinteresse, que vale a pena registrar e exaltar atitudes atenciosas e sensíveis, como as que me envolveram também na semana passada. Na última terça-feira, dia 5 de Outubro, a prefeitura de Volta Redonda trouxe para a cidade o show do Jorge Vercilo, e ainda em dose dupla: uma sessão às 19 e outra às 21 horas. Como minha paixão pelo moço já é antiga, e sua voz, sensibilidade e criatividade já me acompanham intimamente há mais de uma década, claro que fui prestigiar! O show, que mesclou músicas do novo CD, o DNA, e os hits de toda a carreira do artista, emocionou bastante esse coraçãozinho aqui, em diversos momentos. A companhia de uma amiga muito querida, Nathália Nami, que, diferente de mim, assistia pela primeira vez ao vivo a um show do Jorge, tornou o momento ainda mais rico e luminoso. Ela sempre compartilhou comigo a admiração pelo ídolo e já curtimos juntas muitos discos dele.
Bom, legal, né? E daí? Daí que após a primeira sessão eu fui lá dar um oizinho pro moço. Ele preferiu receber os fãs após a segunda sessão, e aproveitar aquele intervalinho ali pra descansar um pouco, mas, sem nenhuma insistência, abriu uma exceçãozinha e me recebeu, junto de um canal de TV local. Um papinho rápido, para não atrapalhar o descanso do artista, uma fotinha, um abração e um convite singelo: “Fique também para o segundo show!” Puxa vida, o próprio artista sugerindo, não tem como negar! O problema era que só tínhamos ingressos para a primeira sessão. Fomos então, eu e mamãe (Nathalinha já tinha ido embora), perguntar à produção, a de Volta Redonda, se havia jeito de ficarmos, mesmo sem os ingressos, e a solução imediata que eles nos apontaram, sem pestanejar, foi: “Podem ficar aqui do palco mesmo”. Trouxeram-nos cadeirinha, aguinha, e curtimos o segundo show agora dali, da lateral do palco, próximo à mesa de som. E não foi só o próprio Vercilo, mas seus músicos e o pessoal de sua produção, em sintonia com ele, também nos receberam com imenso carinho. Ronaldo Castanheira, um de seus técnicos de som, aproximou-se e me deu, na verdade, um presentão: colocou em mim um fone de ouvido onde eu escutava exatamente o mesmo retorno que o Jorge escutava do palco. Normalmente o som de um show é regulado e equalizado para frente, para a platéia, e o som que se ouve da lateral do palco não é dos melhores; eu ali, sem ver e sem ouvir direito, mal entendendo as palavras cantadas, contentava-me em simplesmente me sentir mais perto do artista tão querido. Mas com o fone, eu podia ouvir claramente cada sílaba e nota, como se ouvisse um Cd; e melhor, sendo gravado ali, ao vivo! Com aquela sensação, uma grande janela se abriu, junto com um sorrisão daqueles de mostrar 48 dentes. Depois Ronaldo me colocou outro fone, onde tocava exatamente o que ouvia o baixista em seu retorno no palco. E depois me mostrou o do violinista, do tecladista, do baterista, com direito a ouvir click programado e tudo!
No meio daquele jeito bem particular e especial de ouvir um show, um jeito que me aproximava do fascinante mundo dos bastidores e das tecnologias musicais, mais uma surpreendente experiência sensorial. Mas aí foi a vez da platéia e dos artistas viverem essa nova experiência sensorial; eu, na verdade, fiquei de fora (porque já estava dentro...) Hem???? Calma, vou explicar: enquanto o público cantava em uníssono, numa bela massa sonora, “Encontro das Águas”, sem acompanhamento instrumental e regido por Jorge, a energia acabou, e todos ficaram no apagão geral! Sem entender muito bem o que acontecia, o povo continuou cantando, no escuro, enquanto no palco foi um corre-corre de técnicos tentando resolver o quanto antes o problema, pois o show tem que continuar. E eu, só rindo do inusitado, já mais acostumada com o apagão, já ia oferecer meus préstimos, minha Izadora, mas logo uma providência foi tomada e a luz voltou. O coro da platéia a esta altura já se desmoronava entre dúvidas, impaciências e especulações: “Será que o show acabou?” Show reiniciado e tudo seguiu só alegria até o final. A toda hora Ronaldo vinha me contar como era algum instrumento diferentão que estava sendo usado no show ou me explicar algo sobre a aparelhagem altamente moderna que o artista usava. Na última música, ele veio tocando um agogô; mostrou na minha mão o que era e me ensinou a tocar. Toquei até o fim da música (com umas ajudinhas dele pra manter o ritmo. J) Poxa, o negocinho é pesado! Mas prometo treinar bastante pra na próxima arrebentar! Agora me dêem licença que vou curtir o meu DNA, um trabalho de arranjos fantásticos e sensibilidade gigantesca que já me arrepiou a pele, caiu no sangue e corre pelas veias, chegando a vários lugares meus, trazendo alegria, amor, esperança, vida, novas idéias e muita força criativa, enfim, só coisas boas! Obrigada, Jorge! Obrigada, Ronaldo e todos que trabalham pra este show continuar!



Sarra sorrindo, com fones de ouvido Sara tocando agogô, orientada por Ronaldo


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Outras Formas de Ver

Vocês sabiam que simples temperos como alecrim e orégano ajudam a curar doenças, ou que a pimenta influencia o humor? Vocês sabem o que o manjericão significa para os mexicanos ou para os indianos? Vocês saberiam descrever a textura e a temperatura das folhas e flores de uma calandiva? Venham desvendar esses e outros maravilhosos segredos da natureza no Jardim Sensorial Itinerante! Sim, vocês já ouviram falar nele por aqui. Em Agosto ele estava na Feira de Tecnologia Assistiva do Rio de Janeiro, e agora está no jardim do Museu da República, no Catete. Vocês que moram na cidade maravilhosa ou que forem dar um passeiozinho por ela, venham nos visitar! No Jardim Sensorial os visitantes são vendados e guiados por monitoras cegas ou com baixa visão, por um circuito de plantas e flores, onde podem tocar, cheirar e sentir os vegetais e recebem sobre eles informações históricas e medicinais.
O jardim sensorial funciona de 9 da manhã às 4 da tarde e fica no Museu da República até dia 24 de Outubro. Às quintas e sextas, de 9 ao meio-dia, tem também oficinas de escultura de argila com a artista Rose Queiroz. A visita ao jardim dura em média 15 minutos e é gratuita. Dá pra aproveitar até parte da horinha de almoço para ir lá e explorar os sentidos, descobrir sensações e trocas jamais imaginadas, conhecer a natureza de maneiras bem particulares e intensas e ouvir as mais diferentes histórias contadas por mim, Moirinha, Valéria, Verônica, Rose e pelas outras flores do jardim.

O Museu da República fica ao lado da estação de metrô Catete, na rua do Catete, 153 | Catete | cep 22220-000 | Rio de Janeiro | RJ.
Nós e a primavera esperamos vocês lá!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eu, Fabiano e Izadora

Bengala lilás tocando galhos de amoreira, céu azul de fundo

Provavelmente muita gente passa por aquela árvore e não dá a mínima. A amoreira na entradinha de uma vila em São Paulo é como os momentos raros da vida, tão singelos que tem gente que nem vê. Mas eu os vejo; e não só vejo como os ouço gritar: “Permita-se brincar, ser leve, parar e desfrutar!” Então eu brinco:

Tarde de segunda-feira, momento de ir embora.
O Fabiano me guiava e me auxiliava a Izadora.
Eu não sabia que aquela árvore na frente de onde a Celi mora,
É um pé de amora!
Buzinas, correria, pressa; deixa tudo lá fora,
o momento de viver simplesmente é agora!
O Fabiano e eu queremos amora.
Então, minha amiga Iza, que assim de cara pouca gente adora,
Viu chegada sua hora:
Ela, que vira espada, varinha mágica e microfone,
Ou qualquer coisa que mandar a imaginação de sua senhora,
Ergue-se heróica sacudindo os galhos e alcançando amoras!
Frutas na pança e corações na infância, fomos felizes embora,
Eu, Fabiano e Izadora.
Na boca ficou o doce que se demora,
Aquecendo o frio e colorindo o cinza daquela hora.
Viva a amizade, viva a Izadora!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fio Invisível

O Maestro compôs a sinfonia perfeita e maravilhosa, nós é que tocamos desafinado. Ele escreveu melodias e participações para cada um da grande orquestra, mas não adianta tentarmos tocar sozinhos, sem olhar para o Maestro. Só conseguimos a harmonia quando retomamos a conexão com Ele, com seu andamento, com sua regência. Cada um com seu instrumento, cada um com seu papel, cada um com seu lugar na orquestra, mas todos de olho no Maestro, mesmo que às vezes Ele pareça difícil de ver. Não importa, Ele estará sempre ali, cheio de inspiração e amor por seus músicos, e quem o procurar, vai encontrar.

Foi dessa crescente consciência da sinfonia universal que nasceu a música “Eu Quero Ver”, há uns 3 anos. Lembro-me bem: eu estava no ônibus de viagem, lugarzinho aliás onde muitas canções adoram nascer, e estava deitada em duas poltronas, olhando o céu ensolarado e as árvores que passavam. Despretensiosamente, gravei a nova composição em casa, com um arranjo quase infantil, e ela acabou agradando crianças e adultos. Depois de muito apresentá-la ao vivo pelo Música no Silêncio, projeto da Vez da Voz que aproxima a música das pessoas surdas, gravamos um vídeo desta canção com Libras – Língua Brasileira de Sinais. Cerca de um ano depois, uma surpresa, dessas que só mesmo a internet pra possibilitar: alunos do Colégio Jandira, em Jussara, lá no interior de Goiás, liderados pela professora de artes Liliana Casilo, e sensibilizados pela chegada de uma aluna surda, montaram um coral de Libras na escola. Formado por crianças e adolescentes de variadas idades, o grupo troca os recreios por ensaios, realizados também no período oposto às aulas. E uma das músicas mais interpretadas pelo coral é “Eu Quero Ver”, como eles relataram à Vez da Voz e mostram em diversos vídeos no Youtube. Eles ouviram e baixaram a música do site da Vez, e já o primeiro vídeo que nos enviaram apresentando o projeto era com a mesma. Os depoimentos dos participantes do coral, o entusiasmo e a dedicação deles e de Liliana é o mais emocionante, e muito dessa emoção é passada nos vídeos. Um deles está em: http://www.youtube.com/watch?v=Hlr-kZpwLBo Que a idéia fique de inspiração para muitas escolas e grupos Brasil a fora, integrando diferentes grupos, difundindo a nossa língua nacional de sinais e compartilhando a grande dádiva divina, que é a música, também com quem não pode ouvi-la, mas pode vê-la e senti-la.
Veja também o que o jornalista da Folha de SP, Jairo Marques, falou sobre o coral de Libras do Colégio Jandira e sobre a música “Eu Quero Ver” em seu blog, o “Assim Como Você”

Nossas riquezas perdem todo o sentido quando armazenadas sem nenhum fim, retidas ou investidas no desfrute de apenas um. As canções que escrevo não são minhas, são os tesouros que a vida me dá, em forma de experiências e aprendizados, que recolho, transformo e devolvo ao mundo, numa linguagem que conheço e que todos os corações também são capazes de compreender.
Que tenhamos todos uma semana cheia de luz, de amor ao planeta e a nós próprios, um amor que se reflita em cada pequena ação e interação, em toda realização de nossos dias! Divirtam-se, cantem junto e indiquem esta canção àquela pessoa que vocês sabem que vai gostar de ouvir!
Vejam e ouçam: http://www.youtube.com/watch?v=7CijV0EA5ac
No meu site também dá pra ouvir: http://www.sarabentes.com

Eu quero ver

Eu quero ver o mundo estremecer
Quando chegar a hora de dizer
A qualquer um que em nossa vida está:
... eu dependo de você!

Eu quero ver o mundo compreender
Que um passo, um gesto, um olhar ou um romper,
Uma palavra, um som, uma invenção
afeta a vida de outro ser!

Há um fio invisível
Entre o seu e o meu desejo,
De viver o sonho, a paz,
no céu, na Terra, verde e animais!

Há um fio eternamente
Entre a sua e a minha mão;
Me conduz por meu caminho,
E eu te levo na minha canção!

Eu quero ver o mundo perceber
A humildade pra reconhecer
Que se completam todos, afinal
Somos um único mover!

Um braço, um olho, a perna ou a audição,
sabedoria, calma ou perdão,
se falta em mim e brilha em você,
são os encaixes do viver!

Há um fio invisível
Entre o seu e o meu desejo,
De viver o sonho, a paz,
no céu, na Terra, verde e animais!

Há um fio eternamente
Entre a sua e a minha mão;
Me conduz por meu caminho,
E eu te levo na minha canção!

a perfeição vai então resplandecer
No resultado dessa soma sem fim,
pra confirmar que somos todos um;
E eu confio em você!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Inseparáveis

E viva a tecnologia! Cada vez mais avançada, cada vez mais desejada e consumida, cada vez mais venerada. Graças a ela estou aqui escrevendo pra vocês, graças a ela pessoas como eu podem também botar a boca no mundo e conectar-se a ele, via e-mail, redes sociais, blogs etc, graças a ela pessoas com as maiores limitações físicas conseguem autonomia para realizar muitas coisas não só junto a um computador. Quem visitou a feira de tecnologia assistiva no Rio de Janeiro, citada por mim no último texto aqui do Boca, conheceu cadeiras de roda que sobem escadas, dispositivos como o fantástico e tão desejado aparelhinho que vai permitir que pessoas com deficiência visual tenham independência na hora de tomar o ônibus, celular que, por meio da câmera, detecta luminosidade, cor e nota de dinheiro (ainda em desenvolvimento), leitores de tela com vozes cada vez mais “humanas”, dentre tantos outros aparatos que só vêm trazer mais dignidade à vida de pessoas com deficiência e que antes só existiam nos nossos sonhos mais ousados de tecnologia. Hoje são muitos os avanços e parecem infinitas as possibilidades, embora a maioria desses recursos ainda não seja financeiramente acessível para quase todas as pessoas. Mas não é nesse aspecto que quero mergulhar. Vou contar algo que, aliás, mostra que tecnologias simples e comuns, aliadas a uma boa idéia, muitas vezes são a melhor solução.

Quem leu aqui o texto que postei sobre Giovanni Allevi, um compositor italiano muito gente boa , lembra-se de seu livro, transcrito para o Braille, que eu me desafiei a ler. Pois então, o livro já chegou em minhas mãos, só que em outro formato. Ler um livro em Braille, código que ainda não domino tão bem, e ainda em italiano, me custaria aí talvez uns três anos de peleja. Mas nem foi isso que me fez pensar em outra forma de ler este livro. Os livros em Braille ficam bastante volumosos, e, devido ao peso, sairia muito cara a remessa da Itália para cá. Então minha correspondente no país de Allevi, minha irmã Leda Bentes, comprou o livro impresso e, com o auxílio de um simples mp3 player e gravador, tem gravado sua leitura em voz alta e me manda capítulo a capítulo via e-mail. Baixo os arquivos daqui e tenho me emocionado, rido e chorado com as histórias narradas pela leitura fluida e expressiva da maninha mais velha. A ledora não é tradutora, então os textos estão todos em italiano, o que ainda poderá servir a italianos com deficiência visual se este livro falado for disponibilizado numa audioteca de lá, e é nossa intenção. Há tempos a tecnologia permite a produção e a difusão do Livro Falado; começou com a fita cassete, depois o CD e agora os arquivos digitais, que são muito mais facilmente produzidos, copiados, distribuídos e transportados. E vejam vocês: graças a ela mais uma vez, à tecnologia, minha irmã, que inclusive foi quem, via Skype, ajudou na criação e montagem do blog, lá da Itália, consegue se fazer presente e estar tão próxima a quilômetros e quilômetros, com sua voz, seu tempo, sua doação, sua boa vontade.

Assim como iniciei o texto, quero abrir sua conclusão: Viva a tecnologia! Sim, mas viva mais ainda a boa vontade humana. Ela, que chegou primeiro no mundo, merece respeito, e, ao lado da tecnologia, sua irmãzinha mais nova, torna-se muito mais poderosa e abrangente. Mas a caçulinha tecnologia, sem sua irmã mais velha, não é ninguém nessa vida. Ela se acha, vive a ilusão de que pode um dia dominar o mundo, mas a verdade é que ela é tão dependente da inteligência humana quanto nós, seres humanos, somos uns dos outros e de toda a natureza. Que vivam então inseparáveis essas duas irmãs, só produzindo boas parcerias! Obrigada, maninha!



sábado, 4 de setembro de 2010

Jardim Sensorial



Sara guia rapaz no Jardim Sensorial

Na semana passada aconteceu na cidade maravilhosa a 2° Feira Muito Especial de Tecnologia Assistiva e Inclusão Social das Pessoas com Deficiência do Rio de Janeiro. O interessse pelos produtos e serviços apresentados na feira é cada vez maior, e o público deste ano foi incrível, muito grande e participativo. Um dos estandes mais procurados foi o Jardim Sensorial, e eu tive a sorte de trabalhar lá e fazer parte desse jardim por algumas tardes. O jardim Sensorial é um circuito itinerante de plantas onde guias com deficiência visual conduzem os visitantes, vendados, proporcionando a eles um contato diferente com flores, folhas, frutos, e com seus próprios sentidos. Com a venda, as pessoas concentram maior atenção no tato, olfato e audição, e até outros tipos de percepções, despertando assim para novas formas de “ver”. Além de experimentar um pouco do mundo da ausência de visão, o público também recebe informações sobre cada plantinha que toca, cheira, sente.

Foi minha primeira experiência no Jardim Sensorial. O contato com os diversos aromas, texturas, formas e temperaturas, tão vivos e ricos, foi extremamente prazeroso também a mim, que guiava os corajosos que topavam entregar sua integridade física a guias cegas. Ensinando a eles que aquelas plantas não eram só tempero ou enfeite e explicando sobre as propriedades curativas de cada um daqueles serezinhos ali, passávamos também informações históricas e etimológicas. As pessoas guiadas saíam em geral muito emocionadas, divertidas e mais interessadas pelas plantas. Algumas não nos viam antes de colocar a venda e se surpreendiam ao saber, no meio do caminho, que estavam sendo guiadas por alguém que não enxergava. Não sei se no fundo chegavam a se arrepender de terem entrado naquela furada :D mas pelo menos ninguém tirou a venda no meio do trajeto e nem demonstrou mais medo ou insegurança por isso. Pelo contrário, a surpresa tinha sempre um efeito positivo, e certamente fez muita gente pensar, em seus próprios conceitos, nos conceitos pré-concebidos do mundo. Todos saíam satisfeitos e levavam para a casa algo além do aprendizado sobre as plantas, além dos perfumes nos dedos e do frescor nos pulmões. E dar este algo a mais às pessoas é nossa alegria! Durante as repetidas e repetidas vezes que guiei as pessoas pelo percurso, eu aproveitava para também cheirar e acariciar as plantas, que me davam tanta coisa em troca. Para mim, o contato com plantas e pessoas foi uma combinação encantadora e também só veio somar à minha vida.

Para saber mais sobre a feira e o jardim, visite: http://www.feiraassistivario2010.org.br


Sara cheirando as folhas do manjericão

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Tudo Farinha do Mesmo Saco...

É, minha gente, ainda hei de entender os caminhos do raciocínio humano. O que faz as pessoas criarem em seu imaginário a idéia de que todo cego do mundo se conhece, ou que todo cadeirante é da mesma família, ou que todo surdo estudou na mesma escola? Sim, porque é um tal da gente ouvir “Eu bem guiei um amigo seu aqui ontem” ou “Atendi uma colega sua ainda há pouco” ou “Você conhece fulano, não é? Você não conhece o fulano?!” de pessoas referindo-se a outro cidadão com a mesma deficiência que a nossa. Comentários do tipo são recorrentes, vindos dos mais variados tipos de pessoas. Outro dia cheguei cedo na rodoviária de São Paulo e fui fazer uma horinha por ali mesmo; pedi ao funcionário que me guiava que me deixasse em algum lugar onde eu pudesse me sentar. Ele me levou para umas mesinhas perto de uma lanchonete, onde, pelo som, parecia estar até bem vazio, mas ele fez questão de me botar sentada ao lado de um senhor cego, e ainda disse “Fica aqui do lado do seu amigo batendo um papinho.” Bom, a esta altura já era tarde para tentar fazer alguma escolha (e essa é uma das piores coisas quando não se enxerga: quando as pessoas acham que têm o direito de escolher por você), vamos lá então conhecer e bater um papo com mais um colega de apagão. E mal sabia o moço da rodô que papinho brabo o “meu amigo” ali desenrolaria comigo...
No metrô o que acontece muito também é, quando saltam na mesma estação dois ou mais cegos, cada um no seu caminho, o funcionário que nos espera na plataforma achar que estamos todos juntos e que vamos todos para a instituição de cegos mais próxima. Uma amiga minha, que é cega (amiga de verdade, amiga porque é linda e eu gosto dela, e não porque é cega), ao ouvir de um funcionário do metrô que uma “amiga” dela havia acabado de passar por ali, deu a resposta mais simples e perfeita, em forma de pergunta: “Você é amigo de todo mundo que enxerga?”
No último domingo, quase fui arrastada para o lado errado por conta de uma pequena coincidência somada a esta “Teoria da Nave Única”, a teoria que acredita que uma mesma nave teria trazido todos os cegos de seu planeta distante para a Terra e que, durante a longa viagem, tivemos a oportunidade de nos conhecermos e ficarmos todos amigos. Eu estava indo para o ensaio do teatro, desci na plataforma do metrô Ana Rosa e disse ao funcionário que esperaria uma amiga na catraca. Ele me conduziu até lá e me deixou do lado de dentro, antes da catraca. Um segundo funcionário correu até nós e apressou-se em dizer: “Traga ela pra cá, o pessoal dela já está aqui. Não é o pessoal com deficiência que vai pro teatro?” Contente por não ter que esperar, respondi imediatamente que era sim. E, enquanto o primeiro funcionário me levava até o grupo, pensei “Engraçado, será que todo mundo resolveu também chegar cedo hoje?” Bom, mas o funcionário certamente sabia o que estava dizendo, todos os domingos, dia do nosso ensaio, ele assiste a um grupo de pessoas, com e sem deficiência, encontrar-se ali para seguir junto rumo ao Teatro Dias Gomes. Chegamos ao grupo, mas ninguém pareceu me ver. “Tem uma moça loirinha bem aí na frente” informou-me o funcionário. Pensei então na loirinha mais loirinha do grupo e chamei “Aninha! Aninha!” e nada... Que sensação estranha. Sei que meu grupo do teatro é grande, mas será que uma parte dele realmente não me conhecia ou não me notaria? Acho que não. Perguntei ao funcionário quantos eram no grupo, e ele me respondeu que eram uns vinte cegos. Opa, no meu grupo somos apenas seis do apagão e da baixa resolução de imagem, dentre outras deficiências. “Moço, acho que esse não é o meu grupo” falei decepcionada ao funcionário “mas pode me deixar aqui perto que minha amiga me acha quando chegar”. Assim ele fez, só me arrependi de ter dito a palavra “perto”... Primeiro foi uma moça, mãe de uma menininha cega, que se aproximou perguntando de qual escola de cegos eu era e dizendo que ainda não tinha me visto naquela excursão ao teatro. Depois foi um senhor, que veio me perguntar sobre a peça que assistiríamos, depois outro e mais outro, e de novo e de novo eu explicava que meu teatro era outro. Após uns bons minutos de espera, o grupo pareceu completar-se e seguiu rumo ao Sesc, onde assistiriam a uma peça teatral. Achando graça da situação, fiquei ali rindo sozinha. Agora o ambiente era silencioso e suspirei aliviada. Ouvi alguém correndo em minha direção, era um senhor forte que me pegou pelo braço e tentou me puxar dizendo:
-Vem! Vem! Nós esquecemos você! Vamos rápido!
-Não, moço, eu não estou indo pro mesmo teatro que vocês. Expliquei rindo mais um pouco.
-Como não? Você não é do nosso grupo? ele perguntava quase estupefato.
-Estou indo pra outro lugar, nem conheço ninguém do grupo de vocês.
-Não tem problema, vem assim mesmo!
Claro que a essa altura ele já havia compreendido o engano e estava brincando. E esperamos, pessoal, que o restante das pessoas, as pessoas que enxergam e todos os seus “colegas” de visão perfeita, também não demorem muito pra entender que nós, pessoas com deficiência, não viemos e nem vamos todos para o mesmo lugar, que não temos todos a mesma personalidade e nem fazemos todos as mesmas escolhas.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

365 Dias que Acalmaram o Mundo

Queridos amigos, leitores, visitantes do Boca! Volto aqui após uma semaninha cheia de aventura e emoções, que contarei depois aos poucos pra vocês, e hoje não vou falar de aventuras diárias, não vou falar de inclusão nem de arte, vou apenas indicar uma outra fonte de informações que fala por mim e, na verdade, fala de tudo isso junto e muito mais. Na mesma semana em que postei aqui o texto sobre a escolha entre as boas e as más notícias, chegou ao meu conhecimento o blog 365 Dias que Acalmaram o Mundo. O nome, curioso, chamou-me a atenção, e não me limitei a ler somente o texto sobre o Telelibras, que a blogueira havia escrito. Desandei a navegar pela página e a cada notícia, uma nova emoção maravilhosa, uma nova esperança na alma, uma nova inspiração. Quem acha que o mundo está perdido e que só acontecem coisas terríveis por aí a fora, pode estar apenas com um probleminha de foco, e o que a jornalista, publicitária e roteirista Júlia Lordelo faz é reunir boas notícias e nos ajudar a focar nas maravilhas que têm sido desenvolvidas por seres humanos do mundo inteiro para melhorar nosso planeta. Todos os dias Júlia publica no blog projetos, ações, trabalhos positivos desenvolvidos por uma pessoa, uma comunidade, uma grande instituição, de diferentes partes do mundo.
Na famosa era da informação, somos uma esponjinha absorvendo notícias bombardeadas de tudo quanto é lado, e às vezes nem temos tempo de pensar, de eleger, de filtrar e assimilar apenas o que nos serve. Claro, os desastres, corrupções, mortes, dificuldades e crimes estão aí, mas resolve concentrar a atenção e as energias no que não está fluindo bem? Se todo mundo se focar aí, quem vai mover as energias em direção às soluções? Felizmente tem muita gente, e muito mais do que imaginamos, pensando nas soluções, e muitas vezes as idéias mais simples são o caminho. Mas nossa casa Terra é muito grande e tudo o que se tem feito ainda é pouco. O 365 Dias que Acalmaram o Mundo alimenta a alma de esperança e emociona por mostrar que qualquer, mas qualquer pessoa pode fazer muito mais, e que só fica parado quem quer, pois coisa boa pra fazer é o que não falta!
Bom, aproveite então a leitura para refletir e fazer suas escolhas. Imagine começar o dia trocando as costumeiras reclamações da manhã ou o silêncio duro do mau humor por uma notícia boa e inspiradora. O 365 Dias que Acalmaram o Mundo virou minha parada virtual obrigatória de todos os dias, como fonte de esperança na humanidade, alegria de fazer parte deste mundo e inspiração para continuar. Obrigada, querida Júlia! Com vocês, o 365 Dias que Acalmaram o Mundo:
http://365diasqueacalmaramomundo.zip.net

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sem Barreiras

Saras

Pessoaaaaaaal! Hoje é um dia mais que especial, pois hoje estréia a primeira foto do blog! Pois é, blog de cego também tem foto. Parece que os desenvolvedores do blogger ainda não entenderam que nós também nos interessamos pelo mundo da imagem, já que vivemos nele, e ainda não tornaram acessíveis para os leitores de tela alguns botões do blog, como os de postar foto e vídeo. É por isso que ainda não tinha pintado nenhuma fotinha por aqui. E hoje, depois de muito procurar uma alternativa, consegui a façanha com a ajudinha de um editor de blogs do Windows. Os botões do blog continuam inacessíveis, mas essa discussão a gente deixa pra outro dia. O importante é que hoje temos uma fotografia, que ilustra um daqueles momentos da vida que valem por mil.

Para os colegas de apagão, aí vai a descrição da foto: à direita eu (de cabelos escovados, aiai), e à esquerda uma moça negra que vocês já saberão quem é. Estamos sorrindo, cada uma com um sorrisão maior que o da outra, e estamos erguendo uma das mãos de forma parecida, fechada e perto do rosto. A foto foi tirada na sede brasileira do projeto Solar Ear, em São Paulo. Bom, mas vamos começar do começo: Tudo começou quando um canadense chamado Howard Weinstein perdeu sua filha adolescente no meio da noite, sem nenhum aviso prévio, nenhum sintoma, nenhuma doença. Por acaso ela se chamava Sara. Arrasado, Howard repensou sua vida e resolveu ir para a África e lá fazer trabalhos humanitários. Na escola onde ele passou a trabalhar, foi incumbido de providenciar um aparelho auditivo a uma aluna surda. Por acaso ela também se chamava Sara. Ele se mobilizou para conseguir o aparelho e, ao pegar os dados da aluna para preencher algum tipo de cadastro na hora da aquisição, descobriu que ela nascera no mesmo dia, mesmo mês e mesmo ano de sua filha Sara. É no mínimo de arrepiar, não? Pois é, e Howard viu nisso muito mais que uma coincidência e interpretou o sinal da melhor forma que podia interpretar. Junto de Sara, ele desenvolveu uma tecnologia de carregadores de bateria de aparelho auditivo que utiliza a energia solar. Ali nascia o Solar Ear, que produz aparelhos de baixo custo e econômicos também para o meio ambiente. Outro diferencial do projeto é que a mão de obra na fabricação é de jovens surdos. O projeto tem se espalhado por diversos países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, e é a própria Sara quem viaja a esses países ensinando aos outros surdos a tecnologia do Solar Ear.

É claro que o Telelibras foi conferir de perto este projeto encantador. E, para nossa alegria, Sara estava lá, trabalhando e treinando algumas moças surdas brasileiras, em sua última semana no país. Que sorte a nossa! Eu me sentia muito feliz e grata pela oportunidade de conhecer pessoalmente aquela criatura que carrega o mesmo nome meu e que é um instrumento divino de ressignificação não só na vida de Howard, mas na dos surdos mundo a fora (aproximadamente 278 milhões). Como eu queria expressar a ela essa felicidade e essa emoção. Mas eu não a enxergava e ela não me ouvia, eu não falava a língua dela e ela não falava a minha, aparentemente só o nosso nome igual quebrava aquele cenário de diferenças e todas as barreiras possíveis na comunicação. Mas espera aí, sempre há de existir uma solução...

Quando me perguntam por que eu, estando cega, quero aprender a Libras, língua dos surdos, digo que quero poder me comunicar com qualquer pessoa do meu país, independente de qual seja sua língua. O que eu não imaginava era que, poucas semanas após ter iniciado oficialmente meus estudos da língua brasileira de sinais, eu a usaria para me comunicar com uma pessoa tão especial, e que nem é do meu país. É que a mocinha africana é muito inteligente e, em oito meses no Brasil, ficou fluente na nossa língua de sinais. (Ao contrário do que muita gente pensa, a língua de sinais não é universal, cada país tem a sua. No Brasil, a Libras é uma língua reconhecida, e tão oficial quanto o português, e, pensando bem, ainda mais genuinamente brasileira, pois diferentemente do português, nasceu em território nacional.) “Mas como, Sara? Como uma pessoa que não enxerga vai ver os sinais que o surdo faz?” as pessoas querem saber. E é aí que entra um dos sentidos mais poderosos do ser humano: o tato. As pessoas surda-cegas, como foi a famosa Helen Keller, usam diversos métodos de comunicação, todos baseados no tato. No Brasil, um deles é a Libras Tátil. Comigo funciona da mesma maneira, toco nas mãos do meu interlocutor surdo e desvendo seus sinais acompanhando seus movimentos. E foi assim, com essa dança a quatro mãos rompendo o silêncio e a escuridão, que qualquer barreira entre mim e minha xará de Botsuana foi quebrada. Meu conhecimento de Libras ainda é bem básico, mas com a ajudinha do meu querido amigo, e professor de Libras, Fabiano Campos, intérprete presente no momento, pude trocar com ela algumas palavrinhas, ou alguns sinaizinhos, e expressar, diretamente a ela, minha satisfação em conhecê-la. Na foto, o sinal que fazemos com as mãos é o S, de Saras.

Para conhecer mais sobre o Solar Ear acessem: http://www.solarear.com.br


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Bonzinhos e Pequenininhos

Ontem estávamos viajando tranquilamente, eu e Izadora (minha bengala), quase babando quando o ônibus, São Paulo – Volta Redonda, foi parado pela Polícia Federal. Está virando rotina, praticamente toda semana eles têm revistado a bagagem de todos os passageiros. Aliás, quase todos... Após verificar a bagagem do senhor ao meu lado, o policial perguntou, provavelmente apontando minha mochila à frente dos meus pés:
-Essa também é do senhor?
E o passageiro respondeu:
-Não, essa é da moça "dificiente" aí do lado.
Percebendo que o negócio era comigo, ergui rapidamente a mochila e perguntei ao policial:
-O senhor quer abrir?
No que ele respondeu solícito:
-Não, não precisa, não precisa.
-Como não precisa, moço? Cadê os direitos iguais? Toda semana vocês param o ônibus, me acordam, olham a bagagem de todo mundo menos a minha, já estou cansada dessa discriminação!
Mentira, não falei nada disso, o diálogo terminou na frase do policial me isentando da revista. Mas se não fosse realmente tão transtornante ter a mochila revirada por alguém, e se não fosse pela alegria dos demais passageiros em economizarmos tempo com uma bagagem a menos para ser revistada, eu teria dito. O que não consigo entender é porque as pessoas têm a idéia de que os "dificiente" estão acima de qualquer suspeita. Há uns anos um chefão do tráfico de Brasília foi pego, e, para a surpresa de todos, ele era cadeirante. Tadinho, não prende ele não. Será que algum brasiliense falou assim?
E por falar em tadinho, que pessoa com deficiência nunca foi a um lugar onde a trataram com diminutivos o tempo todo? Curiosamente, isso acontece muito nos hospitais, consultórios médicos, laboratórios e afins. Deve ter alguma disciplina na faculdade de medicina e odontologia que ensina que os cegos, surdos, cadeirantes e pessoas com deficiência intelectual são todos crianças, mesmo que tenham dois metros de altura, trabalhem, estudem, tenham esposa e filhos. Outro dia mesmo fui a um laboratório tirar um sanguinho e a mocinha dizia: “põe o bracinho aqui, fecha bem a mãozinha, não vai doer nadinha, ta bom?”. E respondo, em pensamento: “Ta bom, tia, eu fico boazinha, mas quero um sorvetinho depois.” Pela voz, ela tinha a minha idade ou menos. E não venham me dizer que o tratamento excessivamente carinhoso se dá em resposta ao meu tipinho físico de MM (miúda e magrela), pois eu conheço cego, homem, do tipo duplex, que passa pelas mesmas situações ridículas. Mas é bem verdade que nós, as moçoilas pequenas, levamos desvantagem. Uma amiga querida, colega de apagão, já era inclusive uma jovem senhora quando pediu ajuda para atravessar uma rua movimentada e um homem, muito disposto a ajudar, simplesmente pegou-a nos braços e a colocou na calçada do outro lado da rua. Queria ver se fosse um cego brutamontes, o que o guia tão gentil faria. :D
Mas deixa, deixa eles exercitarem o ladinho maternal deles com a gente, até o diazinho em que nossa pacienciazinha estiver no finzinho e eles ouvirem umas respostinhas bem bonitinhas. Euzinha já tenho uma lista delas para dar! Agora, se vierem apertando minha bochechinha, aí acabaram os diminutivos carinhosos e eu viro bicho!
Então, pra quem ainda pensa que todo cego é bonzinho, e para quem quer dar umas boas risadas e se inteirar um pouco mais do nosso mundo com bastante comédia e ação, recomendo o clássico Cegos, Surdos e Loucos, com Gene Wilder, o da Fantástica Fábrica de Chocolate (o original) e Richard Pryors. Um filminho tipo Sessão da Tarde, dos anos oitenta, mas sempre atual, divertido e até instrutivo. Recomendo muito!