quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Desafio da Bailarina

Sara cantando, e Aline dançando na ponta dos pés

Vésperas do Natal de 2007. Quem andava pelo aeroporto internacional de Brasília por essa época provavelmente se deparou com cenas inusitadas: música ao vivo em diferentes pontos do aeroporto, com um belo violão e uma voz feminina, um contador de histórias muito diferente e alto astral, um rapaz que falava, e cantava, com as mãos na língua de sinais ao lado da cantora e uma bailarina pequena e graciosa para completar o show. Tudo isso fazia parte de um presente de Natal que o aeroporto oferecia a seus usuários e funcionários e também parte de uma capacitação para os funcionários de uma determinada empresa para atenderem melhor a pessoas com deficiência. A cantora do projeto era eu, e a bailarina, que por vezes, entre uma dança e outra, enchia de ternura e curiosidade os olhares que a viam passar sentada sobre uma grande mala empurrada num carrinho de bagagem, com seus brilhos, cores e encantos diferentes, era Aline, a bailarina mais linda que já conheci.
Eu estava sozinha no quarto do hotel, mas sabia que já na primeira noite chegariam Aline e sua mãe. Então foi assim, já nos conhecemos compartilhando o mesmo cômodo, trocando histórias antes de dormir, indo tomar café da manhã juntas e nos ajudando mutuamente. No dia seguinte que nos conhecemos, já nos conhecíamos havia anos! Na verdade eu e a mãe da Aline, Dona Eleide, trocávamos muitas histórias e informações de vida, mas Aline, sempre calada, muito quieta, apenas responde o que perguntamos, sem muitas palavras, e de vez em quando manifesta alguma vontade, porém sempre agradece e pede desculpas quando necessário, educada e gentil como uma perfeita bailarina, graciosa em tempo integral. Mesmo falando pouco, ela participa de outras maneiras, demonstra seus afetos de outros modos, e na dança, ah, na dança ela diz tudo, ela diz plenamente o que sua alma quer, ela diz com muita alegria e sorrisos coisas que fazem chorar, ela diz coisas que ninguém nunca havia me dito. No palco e na música ela encontra seu lugar, sua expressão, sua melhor comunicação com o mundo, com os corações das pessoas. Tudo que ela reclama de dor enquanto sua mãe lhe prende os cabelos ou abotoa-lhe o figurino, já esqueceu no momento em que sobe na ponta da sapatilha e se posiciona no palco. A música começa, e ela é só graça e leveza; saltitos, giros, espacatos, tudo com muita alegria e concentração. Por trás, toda a disciplina, esforço, força, equilíbrio e sacrifícios que sabemos que são necessários na vida de uma bailarina. E de vez em quando, algo parece dar errado; apenas parece. Se uma sapatilha sai do pé, ela continua dançando; se o cd pula, ela não para de dançar e logo se ajusta novamente à música; se o dj, desavisadamente, para a música antes da hora, porque o volume dos instrumentos se abaixa na dinâmica da orquestra naquele momento, ela finaliza a dança com um movimento ou postura de fechamento e faz logo seus agradecimentos corporais. E se ela não conhece a música que será tocada ao vivo e não tem uma coreografia montada para a mesma, ela então não dança, é pedir demais de sua capacidade de adaptação e de solução de problemas. Engano nosso... Eu cantava um samba de minha autoria no palco, enquanto Aline se alongava perto da caixa de som; de repente me contaram que ela estava sambando na ponta e improvisando movimentos. Perguntei então se ela gostaria de me acompanhar e improvisar no palco, até mesmo em outras músicas. Prontamente ela disse “sim, quero” e desde então é o que mais temos feito, há quase três anos. Minha música e sua dança tem sido uma combinação que mexe com as pessoas.
Outro dia Aline dançou muito, umas vinte vezes da manhã até a noite. Ao fim da última apresentação, tirou as sapatilhas chorando de dor nos pés. Não reclamou o dia todo e se mostrava completamente disponível quando a chamávamos para mais uma dança. E por isso e por tantos outros motivos essa bailarina me encanta. Eu gostaria de entender como ela consegue me emocionar às lágrimas enquanto dança, mesmo sem que eu possa enxergar seus movimentos. Sim, as pessoas me descrevem os movimentos de Aline, eu já a toquei enquanto ela dançava, já vi seus movimentos de outra maneira, mas sempre que ela dança, perto ou longe de mim, tenho vontade de chorar. E não sou só eu, tantas pessoas por aí a fora, que estão ou não acostumados a assisti-la dançar, pessoas que conhecem ou não sua história, certamente se emocionam. E sua história é bastante interessante; apesar das coisas que contei sobre ela, coisas comuns na vida de uma bailarina, sua história não é nada comum. Aline nasceu com a síndrome de down, e é a única bailarina com esta síndrome que se sabe no mundo que dança na ponta da sapatilha. Ela já dançou em grandes palcos do Brasil e desafia tantos conceitos e tendências de pessoas com síndrome de down. Não tente entrevista-la, conversar com ela sobre arte, sobre dança, sobre filosofia ou mesmo sobre a deficiência dela, nem peça para ela somar dois e dois, mas presencie sua dança e o diálogo estará estabelecido, você ouvirá tanto sobre profissionalismo, disciplina, superação e talento bem aplicado. Quem convive ou tem um pequeno conhecimento sobre a síndrome de down, sabe das limitações do corpo de quem tem a síndrome, como equilíbrio, firmeza, controle de peso e às vezes até coordenação de movimentos. No entanto, quem conhecer a fundo a história de Aline Favaro, que é revelada inclusive num livro escrito por seu pai, João Tomaz, entenderá também que tudo é possível para uma pessoa com deficiência quando existe a aceitação e apoio da família, e que as capacidades e talentos extraordinários estão em todos nós.
Minha amada colega de trabalho e amiga Aline Favaro completa vinte e nove anos no próximo dia 15 de Outubro, e fica aqui parte da minha homenagem a ela. Aline, moça linda que tem medo de altura, e nem sabe que na verdade está mais no alto que todo mundo, obrigada por estar entre nós!

Conheçam mais em http://www.bailarinaespecial.com.br

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Paixão Antiga

Sara Bentes e Jorge Vercilo

É, pessoal, é duro de acreditar que ainda hoje ouvimos histórias absurdas de discriminação contra as pessoas com deficiência. Ontem mesmo ouvi de uma amiga cadeirante uma dessas histórias, de extremo descaso, e até maldade, que ela viveu com a produção do show de um ídolo internacional que esteve no Brasil semana passada. Ainda é tanta ignorância, despreparo e desinteresse, que vale a pena registrar e exaltar atitudes atenciosas e sensíveis, como as que me envolveram também na semana passada. Na última terça-feira, dia 5 de Outubro, a prefeitura de Volta Redonda trouxe para a cidade o show do Jorge Vercilo, e ainda em dose dupla: uma sessão às 19 e outra às 21 horas. Como minha paixão pelo moço já é antiga, e sua voz, sensibilidade e criatividade já me acompanham intimamente há mais de uma década, claro que fui prestigiar! O show, que mesclou músicas do novo CD, o DNA, e os hits de toda a carreira do artista, emocionou bastante esse coraçãozinho aqui, em diversos momentos. A companhia de uma amiga muito querida, Nathália Nami, que, diferente de mim, assistia pela primeira vez ao vivo a um show do Jorge, tornou o momento ainda mais rico e luminoso. Ela sempre compartilhou comigo a admiração pelo ídolo e já curtimos juntas muitos discos dele.
Bom, legal, né? E daí? Daí que após a primeira sessão eu fui lá dar um oizinho pro moço. Ele preferiu receber os fãs após a segunda sessão, e aproveitar aquele intervalinho ali pra descansar um pouco, mas, sem nenhuma insistência, abriu uma exceçãozinha e me recebeu, junto de um canal de TV local. Um papinho rápido, para não atrapalhar o descanso do artista, uma fotinha, um abração e um convite singelo: “Fique também para o segundo show!” Puxa vida, o próprio artista sugerindo, não tem como negar! O problema era que só tínhamos ingressos para a primeira sessão. Fomos então, eu e mamãe (Nathalinha já tinha ido embora), perguntar à produção, a de Volta Redonda, se havia jeito de ficarmos, mesmo sem os ingressos, e a solução imediata que eles nos apontaram, sem pestanejar, foi: “Podem ficar aqui do palco mesmo”. Trouxeram-nos cadeirinha, aguinha, e curtimos o segundo show agora dali, da lateral do palco, próximo à mesa de som. E não foi só o próprio Vercilo, mas seus músicos e o pessoal de sua produção, em sintonia com ele, também nos receberam com imenso carinho. Ronaldo Castanheira, um de seus técnicos de som, aproximou-se e me deu, na verdade, um presentão: colocou em mim um fone de ouvido onde eu escutava exatamente o mesmo retorno que o Jorge escutava do palco. Normalmente o som de um show é regulado e equalizado para frente, para a platéia, e o som que se ouve da lateral do palco não é dos melhores; eu ali, sem ver e sem ouvir direito, mal entendendo as palavras cantadas, contentava-me em simplesmente me sentir mais perto do artista tão querido. Mas com o fone, eu podia ouvir claramente cada sílaba e nota, como se ouvisse um Cd; e melhor, sendo gravado ali, ao vivo! Com aquela sensação, uma grande janela se abriu, junto com um sorrisão daqueles de mostrar 48 dentes. Depois Ronaldo me colocou outro fone, onde tocava exatamente o que ouvia o baixista em seu retorno no palco. E depois me mostrou o do violinista, do tecladista, do baterista, com direito a ouvir click programado e tudo!
No meio daquele jeito bem particular e especial de ouvir um show, um jeito que me aproximava do fascinante mundo dos bastidores e das tecnologias musicais, mais uma surpreendente experiência sensorial. Mas aí foi a vez da platéia e dos artistas viverem essa nova experiência sensorial; eu, na verdade, fiquei de fora (porque já estava dentro...) Hem???? Calma, vou explicar: enquanto o público cantava em uníssono, numa bela massa sonora, “Encontro das Águas”, sem acompanhamento instrumental e regido por Jorge, a energia acabou, e todos ficaram no apagão geral! Sem entender muito bem o que acontecia, o povo continuou cantando, no escuro, enquanto no palco foi um corre-corre de técnicos tentando resolver o quanto antes o problema, pois o show tem que continuar. E eu, só rindo do inusitado, já mais acostumada com o apagão, já ia oferecer meus préstimos, minha Izadora, mas logo uma providência foi tomada e a luz voltou. O coro da platéia a esta altura já se desmoronava entre dúvidas, impaciências e especulações: “Será que o show acabou?” Show reiniciado e tudo seguiu só alegria até o final. A toda hora Ronaldo vinha me contar como era algum instrumento diferentão que estava sendo usado no show ou me explicar algo sobre a aparelhagem altamente moderna que o artista usava. Na última música, ele veio tocando um agogô; mostrou na minha mão o que era e me ensinou a tocar. Toquei até o fim da música (com umas ajudinhas dele pra manter o ritmo. J) Poxa, o negocinho é pesado! Mas prometo treinar bastante pra na próxima arrebentar! Agora me dêem licença que vou curtir o meu DNA, um trabalho de arranjos fantásticos e sensibilidade gigantesca que já me arrepiou a pele, caiu no sangue e corre pelas veias, chegando a vários lugares meus, trazendo alegria, amor, esperança, vida, novas idéias e muita força criativa, enfim, só coisas boas! Obrigada, Jorge! Obrigada, Ronaldo e todos que trabalham pra este show continuar!



Sarra sorrindo, com fones de ouvido Sara tocando agogô, orientada por Ronaldo


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Outras Formas de Ver

Vocês sabiam que simples temperos como alecrim e orégano ajudam a curar doenças, ou que a pimenta influencia o humor? Vocês sabem o que o manjericão significa para os mexicanos ou para os indianos? Vocês saberiam descrever a textura e a temperatura das folhas e flores de uma calandiva? Venham desvendar esses e outros maravilhosos segredos da natureza no Jardim Sensorial Itinerante! Sim, vocês já ouviram falar nele por aqui. Em Agosto ele estava na Feira de Tecnologia Assistiva do Rio de Janeiro, e agora está no jardim do Museu da República, no Catete. Vocês que moram na cidade maravilhosa ou que forem dar um passeiozinho por ela, venham nos visitar! No Jardim Sensorial os visitantes são vendados e guiados por monitoras cegas ou com baixa visão, por um circuito de plantas e flores, onde podem tocar, cheirar e sentir os vegetais e recebem sobre eles informações históricas e medicinais.
O jardim sensorial funciona de 9 da manhã às 4 da tarde e fica no Museu da República até dia 24 de Outubro. Às quintas e sextas, de 9 ao meio-dia, tem também oficinas de escultura de argila com a artista Rose Queiroz. A visita ao jardim dura em média 15 minutos e é gratuita. Dá pra aproveitar até parte da horinha de almoço para ir lá e explorar os sentidos, descobrir sensações e trocas jamais imaginadas, conhecer a natureza de maneiras bem particulares e intensas e ouvir as mais diferentes histórias contadas por mim, Moirinha, Valéria, Verônica, Rose e pelas outras flores do jardim.

O Museu da República fica ao lado da estação de metrô Catete, na rua do Catete, 153 | Catete | cep 22220-000 | Rio de Janeiro | RJ.
Nós e a primavera esperamos vocês lá!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eu, Fabiano e Izadora

Bengala lilás tocando galhos de amoreira, céu azul de fundo

Provavelmente muita gente passa por aquela árvore e não dá a mínima. A amoreira na entradinha de uma vila em São Paulo é como os momentos raros da vida, tão singelos que tem gente que nem vê. Mas eu os vejo; e não só vejo como os ouço gritar: “Permita-se brincar, ser leve, parar e desfrutar!” Então eu brinco:

Tarde de segunda-feira, momento de ir embora.
O Fabiano me guiava e me auxiliava a Izadora.
Eu não sabia que aquela árvore na frente de onde a Celi mora,
É um pé de amora!
Buzinas, correria, pressa; deixa tudo lá fora,
o momento de viver simplesmente é agora!
O Fabiano e eu queremos amora.
Então, minha amiga Iza, que assim de cara pouca gente adora,
Viu chegada sua hora:
Ela, que vira espada, varinha mágica e microfone,
Ou qualquer coisa que mandar a imaginação de sua senhora,
Ergue-se heróica sacudindo os galhos e alcançando amoras!
Frutas na pança e corações na infância, fomos felizes embora,
Eu, Fabiano e Izadora.
Na boca ficou o doce que se demora,
Aquecendo o frio e colorindo o cinza daquela hora.
Viva a amizade, viva a Izadora!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fio Invisível

O Maestro compôs a sinfonia perfeita e maravilhosa, nós é que tocamos desafinado. Ele escreveu melodias e participações para cada um da grande orquestra, mas não adianta tentarmos tocar sozinhos, sem olhar para o Maestro. Só conseguimos a harmonia quando retomamos a conexão com Ele, com seu andamento, com sua regência. Cada um com seu instrumento, cada um com seu papel, cada um com seu lugar na orquestra, mas todos de olho no Maestro, mesmo que às vezes Ele pareça difícil de ver. Não importa, Ele estará sempre ali, cheio de inspiração e amor por seus músicos, e quem o procurar, vai encontrar.

Foi dessa crescente consciência da sinfonia universal que nasceu a música “Eu Quero Ver”, há uns 3 anos. Lembro-me bem: eu estava no ônibus de viagem, lugarzinho aliás onde muitas canções adoram nascer, e estava deitada em duas poltronas, olhando o céu ensolarado e as árvores que passavam. Despretensiosamente, gravei a nova composição em casa, com um arranjo quase infantil, e ela acabou agradando crianças e adultos. Depois de muito apresentá-la ao vivo pelo Música no Silêncio, projeto da Vez da Voz que aproxima a música das pessoas surdas, gravamos um vídeo desta canção com Libras – Língua Brasileira de Sinais. Cerca de um ano depois, uma surpresa, dessas que só mesmo a internet pra possibilitar: alunos do Colégio Jandira, em Jussara, lá no interior de Goiás, liderados pela professora de artes Liliana Casilo, e sensibilizados pela chegada de uma aluna surda, montaram um coral de Libras na escola. Formado por crianças e adolescentes de variadas idades, o grupo troca os recreios por ensaios, realizados também no período oposto às aulas. E uma das músicas mais interpretadas pelo coral é “Eu Quero Ver”, como eles relataram à Vez da Voz e mostram em diversos vídeos no Youtube. Eles ouviram e baixaram a música do site da Vez, e já o primeiro vídeo que nos enviaram apresentando o projeto era com a mesma. Os depoimentos dos participantes do coral, o entusiasmo e a dedicação deles e de Liliana é o mais emocionante, e muito dessa emoção é passada nos vídeos. Um deles está em: http://www.youtube.com/watch?v=Hlr-kZpwLBo Que a idéia fique de inspiração para muitas escolas e grupos Brasil a fora, integrando diferentes grupos, difundindo a nossa língua nacional de sinais e compartilhando a grande dádiva divina, que é a música, também com quem não pode ouvi-la, mas pode vê-la e senti-la.
Veja também o que o jornalista da Folha de SP, Jairo Marques, falou sobre o coral de Libras do Colégio Jandira e sobre a música “Eu Quero Ver” em seu blog, o “Assim Como Você”

Nossas riquezas perdem todo o sentido quando armazenadas sem nenhum fim, retidas ou investidas no desfrute de apenas um. As canções que escrevo não são minhas, são os tesouros que a vida me dá, em forma de experiências e aprendizados, que recolho, transformo e devolvo ao mundo, numa linguagem que conheço e que todos os corações também são capazes de compreender.
Que tenhamos todos uma semana cheia de luz, de amor ao planeta e a nós próprios, um amor que se reflita em cada pequena ação e interação, em toda realização de nossos dias! Divirtam-se, cantem junto e indiquem esta canção àquela pessoa que vocês sabem que vai gostar de ouvir!
Vejam e ouçam: http://www.youtube.com/watch?v=7CijV0EA5ac
No meu site também dá pra ouvir: http://www.sarabentes.com

Eu quero ver

Eu quero ver o mundo estremecer
Quando chegar a hora de dizer
A qualquer um que em nossa vida está:
... eu dependo de você!

Eu quero ver o mundo compreender
Que um passo, um gesto, um olhar ou um romper,
Uma palavra, um som, uma invenção
afeta a vida de outro ser!

Há um fio invisível
Entre o seu e o meu desejo,
De viver o sonho, a paz,
no céu, na Terra, verde e animais!

Há um fio eternamente
Entre a sua e a minha mão;
Me conduz por meu caminho,
E eu te levo na minha canção!

Eu quero ver o mundo perceber
A humildade pra reconhecer
Que se completam todos, afinal
Somos um único mover!

Um braço, um olho, a perna ou a audição,
sabedoria, calma ou perdão,
se falta em mim e brilha em você,
são os encaixes do viver!

Há um fio invisível
Entre o seu e o meu desejo,
De viver o sonho, a paz,
no céu, na Terra, verde e animais!

Há um fio eternamente
Entre a sua e a minha mão;
Me conduz por meu caminho,
E eu te levo na minha canção!

a perfeição vai então resplandecer
No resultado dessa soma sem fim,
pra confirmar que somos todos um;
E eu confio em você!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Inseparáveis

E viva a tecnologia! Cada vez mais avançada, cada vez mais desejada e consumida, cada vez mais venerada. Graças a ela estou aqui escrevendo pra vocês, graças a ela pessoas como eu podem também botar a boca no mundo e conectar-se a ele, via e-mail, redes sociais, blogs etc, graças a ela pessoas com as maiores limitações físicas conseguem autonomia para realizar muitas coisas não só junto a um computador. Quem visitou a feira de tecnologia assistiva no Rio de Janeiro, citada por mim no último texto aqui do Boca, conheceu cadeiras de roda que sobem escadas, dispositivos como o fantástico e tão desejado aparelhinho que vai permitir que pessoas com deficiência visual tenham independência na hora de tomar o ônibus, celular que, por meio da câmera, detecta luminosidade, cor e nota de dinheiro (ainda em desenvolvimento), leitores de tela com vozes cada vez mais “humanas”, dentre tantos outros aparatos que só vêm trazer mais dignidade à vida de pessoas com deficiência e que antes só existiam nos nossos sonhos mais ousados de tecnologia. Hoje são muitos os avanços e parecem infinitas as possibilidades, embora a maioria desses recursos ainda não seja financeiramente acessível para quase todas as pessoas. Mas não é nesse aspecto que quero mergulhar. Vou contar algo que, aliás, mostra que tecnologias simples e comuns, aliadas a uma boa idéia, muitas vezes são a melhor solução.

Quem leu aqui o texto que postei sobre Giovanni Allevi, um compositor italiano muito gente boa , lembra-se de seu livro, transcrito para o Braille, que eu me desafiei a ler. Pois então, o livro já chegou em minhas mãos, só que em outro formato. Ler um livro em Braille, código que ainda não domino tão bem, e ainda em italiano, me custaria aí talvez uns três anos de peleja. Mas nem foi isso que me fez pensar em outra forma de ler este livro. Os livros em Braille ficam bastante volumosos, e, devido ao peso, sairia muito cara a remessa da Itália para cá. Então minha correspondente no país de Allevi, minha irmã Leda Bentes, comprou o livro impresso e, com o auxílio de um simples mp3 player e gravador, tem gravado sua leitura em voz alta e me manda capítulo a capítulo via e-mail. Baixo os arquivos daqui e tenho me emocionado, rido e chorado com as histórias narradas pela leitura fluida e expressiva da maninha mais velha. A ledora não é tradutora, então os textos estão todos em italiano, o que ainda poderá servir a italianos com deficiência visual se este livro falado for disponibilizado numa audioteca de lá, e é nossa intenção. Há tempos a tecnologia permite a produção e a difusão do Livro Falado; começou com a fita cassete, depois o CD e agora os arquivos digitais, que são muito mais facilmente produzidos, copiados, distribuídos e transportados. E vejam vocês: graças a ela mais uma vez, à tecnologia, minha irmã, que inclusive foi quem, via Skype, ajudou na criação e montagem do blog, lá da Itália, consegue se fazer presente e estar tão próxima a quilômetros e quilômetros, com sua voz, seu tempo, sua doação, sua boa vontade.

Assim como iniciei o texto, quero abrir sua conclusão: Viva a tecnologia! Sim, mas viva mais ainda a boa vontade humana. Ela, que chegou primeiro no mundo, merece respeito, e, ao lado da tecnologia, sua irmãzinha mais nova, torna-se muito mais poderosa e abrangente. Mas a caçulinha tecnologia, sem sua irmã mais velha, não é ninguém nessa vida. Ela se acha, vive a ilusão de que pode um dia dominar o mundo, mas a verdade é que ela é tão dependente da inteligência humana quanto nós, seres humanos, somos uns dos outros e de toda a natureza. Que vivam então inseparáveis essas duas irmãs, só produzindo boas parcerias! Obrigada, maninha!



sábado, 4 de setembro de 2010

Jardim Sensorial



Sara guia rapaz no Jardim Sensorial

Na semana passada aconteceu na cidade maravilhosa a 2° Feira Muito Especial de Tecnologia Assistiva e Inclusão Social das Pessoas com Deficiência do Rio de Janeiro. O interessse pelos produtos e serviços apresentados na feira é cada vez maior, e o público deste ano foi incrível, muito grande e participativo. Um dos estandes mais procurados foi o Jardim Sensorial, e eu tive a sorte de trabalhar lá e fazer parte desse jardim por algumas tardes. O jardim Sensorial é um circuito itinerante de plantas onde guias com deficiência visual conduzem os visitantes, vendados, proporcionando a eles um contato diferente com flores, folhas, frutos, e com seus próprios sentidos. Com a venda, as pessoas concentram maior atenção no tato, olfato e audição, e até outros tipos de percepções, despertando assim para novas formas de “ver”. Além de experimentar um pouco do mundo da ausência de visão, o público também recebe informações sobre cada plantinha que toca, cheira, sente.

Foi minha primeira experiência no Jardim Sensorial. O contato com os diversos aromas, texturas, formas e temperaturas, tão vivos e ricos, foi extremamente prazeroso também a mim, que guiava os corajosos que topavam entregar sua integridade física a guias cegas. Ensinando a eles que aquelas plantas não eram só tempero ou enfeite e explicando sobre as propriedades curativas de cada um daqueles serezinhos ali, passávamos também informações históricas e etimológicas. As pessoas guiadas saíam em geral muito emocionadas, divertidas e mais interessadas pelas plantas. Algumas não nos viam antes de colocar a venda e se surpreendiam ao saber, no meio do caminho, que estavam sendo guiadas por alguém que não enxergava. Não sei se no fundo chegavam a se arrepender de terem entrado naquela furada :D mas pelo menos ninguém tirou a venda no meio do trajeto e nem demonstrou mais medo ou insegurança por isso. Pelo contrário, a surpresa tinha sempre um efeito positivo, e certamente fez muita gente pensar, em seus próprios conceitos, nos conceitos pré-concebidos do mundo. Todos saíam satisfeitos e levavam para a casa algo além do aprendizado sobre as plantas, além dos perfumes nos dedos e do frescor nos pulmões. E dar este algo a mais às pessoas é nossa alegria! Durante as repetidas e repetidas vezes que guiei as pessoas pelo percurso, eu aproveitava para também cheirar e acariciar as plantas, que me davam tanta coisa em troca. Para mim, o contato com plantas e pessoas foi uma combinação encantadora e também só veio somar à minha vida.

Para saber mais sobre a feira e o jardim, visite: http://www.feiraassistivario2010.org.br


Sara cheirando as folhas do manjericão