quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Comendo no escurinho

Sara, com cara sofrida, pano de prato no ombro, mão na testa, mexendo um macarrão no fogão.
Sara, sorrindo feliz, mexendo o mesmo macarrão no fogão.
Um bicho de 7 cabeças? Que nada, vai? Só alegria!

Amigos, colegas, seguidores do Boca e famintos de plantão! Há uns meses contei aqui como andava minha reaproximação de algo que por um momento me pareceu monstruoso, mas algo tão essencial em nossas vidas quanto o ar que respiramos: o fogão. Listei os pratos que na época eu já havia reaprendido a fazer, e a lista não preenchia uma ínfima linha... :) De lá pra cá, estou ficando cada vez mais amiga do fogão, meu repertório culinário tem crescido e, o mais importante, até que tem agradado. Afinal o que é quantidade sem qualidade? E para comemorar os pequenos progressos e compartilhar essa alegria com os amigos, estou organizando para o início do ano o “Comendo no Escurinho”. Calma, gente, calma que eu explico: eu, euzinha vou preparar um jantar (vegetariano, claro) e oferecer aos amigos mais corajosos em minha casa. O cardápio será simples, mas com direito até a sobremesa! Os carnívoros podem até chegar com um certo preconceito, mas garanto que vão sair nem sentindo falta dos bichinhos. E tem mais um detalhe, que termina de explicar o nome do evento: todos terão que comer vendados. É isso mesmo: todos iguais! Gente, restaurantes totalmente escuros e com garçons todos cegos já existem faz tempo em países de primeiro mundo, e este ano a moda já chegou até em Brasília! O aroma e o sabor da comida recebem muito mais atenção dos nossos sentidos, por nossa visão não estar distraindo o cérebro com zilhões de informações ao mesmo tempo. Para quem não tem muita prática, recomendo não vir de branco e trazer um babadorzinho caso se deseje sair limpo... :D E, como sou uma amiga fofa, vou até deixar os amigos queridos comerem em pratos fundos e, quem sabe até pico a salada pra eles! Os amigos que não vierem por motivo de lonjura maior, não fiquem tristes, contarei tudo aqui depois, e com direito a foto dos micos e tudo mais! Aguardem!
Abaixo, eu e os 3 corajosos que provaram do meu espaguete ao shitake no último domingo: meus primos tão queridos Carol Bentes, Aline Bentes e Carlos Augusto Bentes, que trouxeram, além de seus estômagos Bentes (sempre prontos pra atacar), muita, mas muita alegria, e gargalhadas de deixar o diafragma dolorido até o dia seguinte. Amo vocês, primos lindos!

Quatro Bentes sorridentes à mesa

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Escola de artistas

Existe uma arte que não usa pincel, não usa instrumentos musicais, nem palco nem livros. É uma arte muito simples, que não requer nenhum acessório ou espaço específico, e, ao mesmo tempo, é tão minimalista quanto uma composição para orquestra. Uma arte silenciosa, e tão essencial quanto qualquer outra, e que não adianta procurar escolas onde aprendê-la, não, você não vai achar. Mas te dou uma boa notícia: você nem precisa investir o seu dinheiro no aprendizado desta arte, a escola está aí, bem aí na sua frente, exatamente agora, neste momento, e em qualquer outro. A arte é sorrir às seis horas da manhã, apesar de todo o sono e a correria, é sorrir pra você mesmo, e pra quem quer que cruze o seu caminho até o trabalho; a arte é ouvir quem conversa com você como quem ouve uma música, é esperar seu interlocutor concluir sua frase, é beber cada uma de suas palavras, ainda que ao mesmo tempo briguem por sua atenção os anúncios comerciais, cartazes, letreiros, roupas ou carros bonitos; a arte é estar atento aos outros na calçada e oferecer uma mãozinha a alguém que pareça precisar de uma ajuda pra atravessar a rua por exemplo; a arte é fazer sorrir ou rir seu colega de trabalho, seu companheiro de vida, seu irmão, seu filho; a arte é se lembrar de agradecer, mesmo que intimamente, sempre que vier a vontade de maldizer e reclamar; a arte é desenvolver a própria criatividade e inventar com seu filho uma brincadeira nova na banheira para convencê-lo a tomar o banho, é montar sobre a comida dele uma carinha, de olhinhos de azeitonas, antes de perder a paciência e desistir de fazê-lo comer; a arte é olhar para todos do seu grupo, e não só para aqueles que se destacam por seu carisma e beleza; a arte é homenagear quem está do seu lado, ou esteve quando você mais precisou, com um presente feito por suas próprias mãos, por seus próprios dons; a arte é dizer o quanto você admira uma pessoa e suas atitudes antes que seja tarde demais; a arte é olhar atentamente pra você mesmo, com a mesma profundidade que deseja conhecer aquele que é alvo de sua paixão; a arte é olhar para toda essa festa de cores e luzes de Natal, e presentes, e apelo comercial, e correria, e investimentos além do permitido, e enxergar o que realmente importa.
Que as datas festivas nos tragam muita alegria sim, mas a alegria consciente, genuína, a alegria de nos sentirmos no caminho certo, a alegria de nos sentirmos úteis neste planeta, a alegria de nos sentirmos úteis a alguém, a alegria de nos sentirmos em paz com todos aqueles que amamos, a alegria da comunhão com nossos amigos e com a natureza, a alegria dos desafios vencidos, a alegria de plantar uma árvore, de plantar arte, a alegria de comemorar uma boa notícia. E se o mundo não te dá boas notícias, produza você uma notícia maravilhosa! Um Natal e um novo ciclo lotado de arte para todos nós, lotado de música, teatro, literatura, dança, cinema, fotografia, boas notícias, e também cheio dessa arte da atenção, da gentileza, do sorriso, do foco no essencial e no positivo, a arte de se relacionar, a arte de ser humano.


No centro, menininho sorridente surgindo de dentro de um balde e segurando outro sobre a cabeça. Em volta, imagens menores do mesmo menino em 5 diferentes momentos de brincadeira com os dois baldes.

Giulio Garrone, meu sobrinho mais velho, aos 3 anos de idade, em ensaio fotográfico com os baldes. :)


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Detector de Olhar

Ela só veio ajudar. A tecnologia veio diminuir distâncias, aproximar países, melhorar e muito a qualidade de vida das pessoas. Acontece é que nem sempre permitimos que ela cumpra seu papel positivo, e em vez de aproximar ela isola, em vez de melhorar ela dificulta. Bom, mas este não é o foco dessa conversa. Aliás, focar é o que quero. Voltando à tecnologia, o que dizer então das barreiras que ela derruba para as pessoas com deficiência. São os sintetizadores de voz para ler a tela, mouses especiais, bonés com detector de obstáculos na altura da cabeça, cadeiras de rodas movidas a sopro pra quem não mexe os braços, aparelhos auditivos. Quanta gente não veio me contar da reportagem que mostrou, exatamente na época do meu apagão, uns óculos que devolvem a visão, ainda em preto e branco, por meio de um pequeno aparato em contato com a língua! Uma bizarrice assim. Minha irmã, antenada com as novidades da Europa, já me contou de uma versão mais evoluída: uns óculos que, por meio de um chip implantado no cérebro, permitem a visão colorida. Enquanto o invento em testes não chega por aqui, e por um preço acessível (sonhar ainda está saindo barato...), eu me contentaria com óculos diferentes, e certamente menos custosos. Tudo o que eu quero são óculos que me dêem um alerta, de preferência vibratório (pois de apito o mundo já está cheio), sempre que outros olhos estiverem pousados nos meus; sim, óculos detectores de olhar, que sinalizasse pupila com pupila, que me informasse que a qualquer distância tem alguém me olhando nos olhos. Porque quero retribuir, porque quero acolher com um sorriso, porque preciso saber se estou sendo encarada de frente (pleonasmo proposital), porque quero saber se meu interlocutor está focado em mim, porque não quero falar olhando para o nada. Se a briga é por direitos iguais, se nós, que não enxergamos, temos o direito de também ler todos os textos do mundo, e pra isso o Braille, os leitores de tela, os mini scanners de mão com sintetizadores de voz, que ainda chegarão no mercado, por que não teríamos o direito de ler os olhares? Esses nossos tempos que carecem tanto de conversas sinceras, esses nossos tempos corridos que quase não dá tempo de sentar com uma pessoa querida só para conversar, olhos nos olhos, esses nossos tempos em que a tecnologia- (opa, olha ela aí de novo!), pois é, a mesma tecnologia que veio aproximar, fechou as pessoas em seus netboocks, celulares, i-phones. E aí, cada vez mais conectadas com o mundo, as pessoas se desconectam do que está tão perto, do que está diante do seu nariz, do que está ao seu lado. “Do que está ao lado? Tem alguma coisa ao meu lado? Ah, sim, tem alguém ao meu lado.” E olha que engraçado: para se sentirem menos sozinhos em suas ilhas tecnológicas, os seres humanos tentam humanizar a tecnologia; as vozes sintetizadas são cada vez mais humanas e expressivas, atendimentos eletrônicos cada vez mais interativos e inteligentes (embora com sérias limitações auditivas na maioria dos casos: “Não entendi.” “Qual o nome que você disse?”). Enfim, se para qualquer pessoa tem sido raro os olhos nos olhos, para quem não enxerga este contato não existe, e eu sinto falta dele. As conversas já são tão distraídas, são tantas as ofertas e chamados por toda a volta; a concorrência é desleal: é a televisão com sua velocidade alucinante, são os letreiros com luzes e cores bem mais interessantes que as nossas, é o celular que vibra no bolso só pra avisar que a bateria está fraca ou pra fazer um lembrete qualquer, é a peripécia de um outro motorista no trânsito caótico, é a figura exótica ou o modelito ousado de uma lambisgóia qualquer; tudo grita por atenção, tudo se fabrica para atrair o maior número de olhares possível. E assim fica difícil saber quando o foco está em você, que está falando e falando. E se você não pode ver onde estão os olhos de seu interlocutor, piorou. Assim como um “entendo” ou um “hum” não são garantia de atenção, o olhar somente também não diz tudo. Posso estar de olhos fixos em você e pensando no capítulo de ontem da novela. Mas juntando minha audição, com my Glasses look detector Vibrator Taba-Sara, mais minhas outras formas de perceber o outro, minha comunicação pessoal estaria muito melhor estabelecida. Claro, para quem não enxerga, as conversas fluem melhor num ambiente mais calmo e silencioso. Mas é que diálogos espontâneos, e muitas vezes os mais longos e preciosos, surgem a qualquer momento, qualquer local. Não dá pra marcar hora nem lugar silencioso pra contar o que acabou de me acontecer, pra contar o que senti agora, pra contar uma idéia que acabei de ter ou algo que acabou de me encantar.
Com meus óculos vibratórios eu poderia não só estar mais confiante em um diálogo, mas também me faria feliz ter a autonomia de buscar e encontrar o olhar de alguém, e me fixar nele, e procurar por outro ângulo se a pessoa fugir o olhar de mim, e brincar de bater um sério, e paquerar (é claro que as piscadelas também seriam sinalizadas, breves interrupções na vibração dos óculos as revelariam). Vibro inteira só de imaginar como é sentir de novo que alguém tem os olhos nos meus olhos. Mesmo que por vezes fosse inevitável a sensação de ter um celular em desatino vibrando sem parar na cabeça, como resposta a uma longa troca de olhares, vou seguir sugerindo o invento. Se já temos câmeras fotográficas detectoras de sorriso, não devemos estar longe da minha idéia.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O que você me mostraria?

Sara com giulietro - um girassol sorridente de pelúcia - em sua cintura, sorrindo para ele


Chegamos no evento. Uma amiga querida, cheia de boa vontade, descrevia pra mim o estande onde nos instalávamos, ela falou do chão cinza, de um único banco disponível, bem alto, do monte de fios pelo chão; mostrou-me os limites do estande, apertadinho, depois as “paredes” e as “mesas”, estruturas de um firme papelão, (o evento tratava de sustentabilidade) e que bambeavam a um simples esbarrão. Eu deveria ter cuidado aqui, cuidado ali, com os fios espalhados pelo chão, com as bolsas de todos do grupo acomodadas junto ao banquinho, com as mesas e paredes sustentáveis, que não se sustentavam muito bem. “Melhor então nem me mexer” pensei, desanimada. Minutos depois, uma outra amiga chegou, e disse entusiasmada: “Sara! Você viu os girassóis que tem aqui?” Girassóis? Ela me puxou empolgada e me fez tocar enormes girassóis de verdade num canteiro que delimitava o mesmo estande. Tudo mudou!

O olhar é uma escolha. E você? O que seus olhos me mostrariam primeiro?


Para celebrar o olhar positivo, o olhar da beleza e do encanto, aí vai um presentinho pra vocês: o vídeo de uma canção composta por mim ano passado, com direito a tradução em Libras, desenho e muita poesia. Assistam a um dos vídeos mais lindos produzidos pela Vez da Voz! Com vocês, Gira e Só.



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nasce e renasce

Sempre fui meio apegada a datas: “Hoje está fazendo um mês que cantei em tal lugar, amanhã faz um ano que conheci fulano, ontem fez quinze dias desde aquela festa...” Isso é bom, acaba me fazendo lembrar com facilidade os aniversários das pessoas queridas e outras datas importantes, mas por outro lado... datas de acontecimentos desastrosos também são lembradas. No dia em que minha visão se apagou de vez, intimamente pensei: “Todos os meses, neste mesmo dia, vou me lembrar desse dia e de toda a dor física que veio com ele.” No mês seguinte, inevitavelmente, constatei: “Hoje está fazendo exatamente um mês.” Passaram-se dois meses e lá estava eu de novo: “Hoje está fazendo dois meses.” Quando chegou o aniversário de três meses, cansei, e resolvi ressignificar a data. Então, no dia 6 de Junho de 2010 nasce o Boca no Mundo. E, quando a gente decide ressignificar, os novos significados vêm, e cada vez melhores.

No mesmo dia começava na Oficina dos Menestreis mais um curso-montagem da turma Mix, mas eu não sabia. Apenas uma semana depois foi que fiquei sabendo e caí lá de paraquedas, atrasadinha, eu, Izadora e minha camisa da seleção, como uma fiel filha do Brasil, sem nem saber ainda que peça montaríamos.

Bom, quando o blog fez um mês, lembrei que o apagão fazia quatro meses. Quando o blog fez dois meses, comemorei internamente. Ah, e me lembrei também que o apagão fazia cinco meses. Continuei comemorando os meses de vida do Boca, e quando me dei conta, tinha parado de contar os meses do apagão. E aí, outro dia, quando alguém me perguntou quantos meses já fazia de ausência de visão física, fui recalcular e... wal, dia 6 de Dezembro, dia da estreia do musical Filhos do Brasil com a turma Mix da Oficina dos Menestreis, faz exatamente nove meses; e está nascendo um bebezão lindo!

Hoje só tenho a comemorar, e uma emoção diferente me ilumina por estrear com uma galera cheia de energia e que só veio colorir este meu ano com muita alegria, paixão e ensinamentos. Foram dois meses de curso e quatro de montagem, com muito trabalho, esforço, diversão e bengaladas nas rodas das cadeiras! Quero agradecer aqui a Ana Paula, Tabs, Vans, Ceci, e cada um dos veteranos menestréis que me acolheu em sua casa, em sua amizade, em sua confiança, a Sandrinha e cada um que me fez companhia nas idas e vindas de metrô e nos banquinhos e lanchonetes do terminal Tietê na espera do meu Ônibus de volta pra casa, à Aninha, Ju, e todos da equipe, que unem o amor à arte à vontade de ajudar e estão com a gente, prontos pra qualquer parada, a Dulcinha, Gui, Cleu, e todos que me ensinam tanto sobre superação e esforço, a todo o pessoal da banda, ao Deto, Evelyn, Pat, Rica, Léo, pelo carinho e pelos desafios jogados na minha mão, pelas grandes ideias, por acreditarem na gente e por desenvolverem trabalhos como este. É muito bom estar com vocês e ser uma nova menestrel! Amo vocês! Ah, e merdão pra nós!!!

E quanto ao Boca, seis meses de vida; parabéns, e obrigada a vocês, queridos leitores, que dão a ele todo o sentido! A participação, os comentários, o incentivo, as sugestões são sempre muito importantes! Obrigada, obrigada, obrigada!! Meus beijos e abraços do tamanho do mundo



Elenco do musical Filhos do Brasil durante ensaio no palco

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Prêmio Absurdo da Semana

“Nossa Senhora do serrado, protetora dos pedestres que atravessam o Eixão às seis horas da tarde, fazei com que eu chegue são e salvo na casa da Noélia!” Essa deliciosa música-oração, praticamente escondida em um dos CDs da Legião Urbana, eu ouvia muito na minha adolescência. E escutá-la ali, na terra do Renato, ao fim do filme BRAXÍLIA no Festival do Cinema de Brasília, fez lembrar dele e sua imensa força, sua imensa voz celebrada por geração após geração até hoje, fez lembrar dos difíceis tempos de adolescente, fez lembrar da cumplicidade com minha irmã, quem me ensinou a gostar daquela voz, e me fez chorar. Assim parecia terminar mais uma semana de aventuras sexta passada, mas na verdade ela ainda se findaria com mais fortes emoções...
Semaninha agitada, pessoal, em que descobri como estar em 3 estados e 5 cidades entre segunda e sexta-feira. Pois é, levada pelo trabalho, pela arte, por minha missão, consegui esta façanha. E, nessas andanças em rodoviárias, aeroportos, metrôs, passei pelas mãos dos mais diversos guias: funcionários, aerotios, passantes, anjos bons; além de ter reencontrado queridos amigos antigos e feito novos. Por onde andei e o que andei fazendo? Bom, eu precisaria de mais inúmeras postagens pra contar com os merecidos detalhes todos os eventos, todos os encontros, todas as viagens e histórias da semana, que não foram poucas. Mas destaco aqui algumas das situações mais marcantes, seja positiva ou negativamente.
Comecemos então, senhoras e senhores, pelos destaques que concorrem ao “prêmio ABSURDO da semana”: em plena segunda-feira, próximo a um estúdio de som no Rio de Janeiro, encontrei meus amigos músicos Júlio Ribeiro e Luiz Otávio, ambos colegas de apagão. Eu acabara de chegar de Volta Redonda e puxava minha mala de rodinhas. Éramos então três cegos e uma mala rua afora procurando a entrada do estúdio. Ninguém parecia passar na rua para pedirmos ajuda. Julinho telefona para dentro do estúdio e pede orientação, dizendo que somos cegos e que precisamos de ajuda; e o amigo do outro lado: “Tu segue um muro branco até o final e vira à direita.” Bacana! Então a gente espera passar alguém e não pergunta onde é a entrada do estúdio, a gente pergunta se aquele ali é o muro branco. Hehehe! Depois, concorrendo ao mesmo prêmio, vem a rodoviária de Campinas, já citada aqui no Boca como mau exemplo de colocação do piso tátil. E adivinhem o problema agora: ele próprio outra vez. Eles lá planejaram um belo natal para seus usuários, com lindas bolas e luzes coloridas e enfeites que inspiram os melhores votos natalinos, paz e felicidade a todos os viajantes. Mas talvez a mesma felicidade e paz não sejam possíveis à árvore de Natal e ao pobre do Papai Noel enorme instalados BEM no meio do piso tátil... Nessas horas eu queria até enxergar pra ver a cena comédia pastelão do cego caminhando cheio de pressa por sua pista tátil e, com sua varinha mágica, botando pra dormir papai noel, árvore, pisca-pisca, melhores votos, paz, felicidade e estrela de Belém. Que tristeza... Isto foi na quarta-feira, e no sábado, após ter presenciado uma aerotia do Aeroporto Internacional de Brasília pedir informações sobre a minha pessoa à minha acompanhante e não a mim, julguei completa a lista de micos candidatos ao prêmio, mas, pra minha surpresa, o vencedor ainda estava por vir... No mesmo dia, já em São Paulo, eu e minha amiga Tábata Contri dávamos um passeiozinho gostoso de carro no fim da tarde. Paramos em frente a uma loja de fantasias, cheia de degraus na entrada. Minha amiga é usuária de cadeira de rodas, e eu, uma mera aprendiz no apagão; a única solução que vimos naquela hora foi tentar fazer com que a atendente viesse até nós. Do carro, gritamos, gritamos, chamamos, e demorou até que uma senhora se convencesse de que não se tratava de uma molecagem e fosse até a porta. Ainda de longe, Tábata explicou a situação. Com muita má vontade, a senhora veio nos atender na calçada. Sem nenhuma vontade de vender, forneceu a Tábata as informações solicitadas sobre determinados itens da loja. “Sua loja tem muitos degraus, moça- dizia Tábata –e se eu vier experimentar essas roupas? Terei que trazer um homem bem forte?" e a mulher respondeu sem nenhum pesar: “É, só se for.” Fala sério, minha senhora, é por causa de criaturas como você que precisamos de leis e fiscalização dura pra tornar nosso país acessível, porque para as pessoas sensíveis e criativas, basta se esbarrar no problema para se pensar na solução. E, empatado no primeiro lugar com esta mulher, está o homem que, horas depois, bateu no carro em que estávamos e não fez nem menção de parar. Nosso anjinho da guarda é muito bom e ninguém se machucou, mas agora a motorista, cadeirante, precisa sair pelo banco do carona porque sua porta não abre devido à pancada e tem um carro amassado. Nota ZERO pra você, meu amigo.
Graças a Deus, a semaninha também foi recheada de atitudes louváveis, mas estas, concorrentes ao “Troféu ARRASOU” DA SEMANA, DEIXO PARA A PRÓXIMA POSTAGEM. Aguardem, comentem, fiquem bem!


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Teatro dos Sentidos

Uma experiência inesquecível... Hoje, por força desses encontros mágicos do destino, conheci o Teatro dos Sentidos, e assisti à peça encenada por eles: Feliz Ano Novo. Nem sei se posso dizer que “assisti”, talvez eu possa dizer, assim como todos da plateia, que participei da peça Feliz Ano Novo. É isso mesmo, o grupo teatral do Rio de Janeiro Teatro dos Sentidos, dirigido pela atriz e escritora Paula Wenke, desenvolveu um trabalho voltado especialmente para a tchurma do apagão, mas quem enxerga é igualmente bem vindo na plateia e, com uma venda nos olhos, tem a oportunidade de mergulhar no espetáculo da mesma forma que nós, deleitando-se com todos os outros sentidos fora a visão. Sim, todos mesmo! E as surpresas que tive com meus outros sentidos sendo provocados foi um dos pontos fortes da minha imensa emoção. Primeiro me surpreendi ao sentir os aromas de elementos presentes na narrativa. Logo depois, qual não foi minha surpresa quando os personagens compartilharam com a plateia comidas que compunham a cena, como biscoitos de chocolate, pipoca salgadinha (e eu sonhei pelo resto da peça com aquela bacia de pipoca passando de novo pela minha mão... ), e até champanhe para comemorar com eles a virada do ano. No carnaval da história, confetes e cerpentinas eram jogados abundantemente sobre nós, como uma chuvinha gostosa de alegria e surpresa. Sons dos mais variados tipos, produzidos pelos atores bem próximo da plateia, assustavam, emocionavam, faziam rir, criavam ansiedade, acariciavam, e sobretudo nos levavam para dentro das cenas. Esses sons e mais duas narradoras complementavam nosso imaginário com todas as informações necessárias para a total compreensão da trama, como uma espécie de audiodescrição, bem interativa e particular. Claro que a música também marcou presença, desde o começo, mas de repente um violino tocado ao vivo chegou surpreendendo e rasgando a emoção. Situações divertidas, comoventes, românticas, lúdicas e até de extrema tensão, como o naufrágio de um navio, foram vividas por todos nós.

Os textos e poemas de Paula, junto à brilhante atuação de todos os atores, inclusive mirins, conduziam com encanto aquela experiência inédita e inesquecível. Depois de comer, beber, rir e chorar (bastante...), ser convidada a acariciar o rosto de um personagem, sentir brisa, sereno, interagir com os bichos de uma fazenda, participar de um naufrágio, de um carnaval, de um reveillon, ouvir de perto o canto dos atores, recebi uma rosa, de verdade e sem espinhos. Despetalei-a inteira, enquanto transbordava de mim tudo aquilo intimamente mexido e tocado por aqueles carinhos que chegaram na alma através dos sentidos. As pétalas se soltavam entre meus dedos uma a uma à medida que se desenrolava o fim da peça, aquele auge de bagunça gostosa nas lembranças mais profundas, conscientes e inconscientes, quando todos os sons, todos os cheiros, todas as texturas já experimentadas durante o espetáculo, agora nos provocavam todos de uma vez, passeando entre a plateia, passando bem perto, afastando-se, como num sonho louco, como num momento especial da vida em que se repassa na mente as vivências mais marcantes. Depois de tanta emoção, derramei minhas pétalas sobre a Paula, foi minha homenagem e meu agradecimento.

Tudo isso aconteceu esta tarde na Ilha d´água, num evento interno da Petrobrás, em que participei cantando. Ao deixarmos a ilha, numa grande lancha, fomos todos juntos: eu, o violonista que me acompanhou, meu querido amigo Júlio Ribeiro, funcionários da empresa e todo o elenco da peça. Quando eu entrava na embarcação, uma vozinha gentil e acolhedora me ofereceu ajuda antes de qualquer outra; o dono da voz pegou-me pela mão e me orientou para sentar ali, num lugar vago ao seu lado. Na confusão do momento agitado, nem pude reconhecer a voz e nem perceber o tamanho daquela mãozinha, só depois que me acomodei no banquinho foi que descobri que quem estava ao meu lado e me ajudara com tanta naturalidade era o ator mais jovem do elenco, Yorran, de 10 anos de idade. Batemos um papão, e mais lindo que ouvi-lo falando sobre o público alvo daquele espetáculo, as pessoas com deficiência visual, falando sobre inclusão, foi ver e confirmar mais uma vez que projetos como este deixam suas marcas em quem assiste, em quem atua, em quem promove, em tantos quantos estiverem envolvidos. No desembarque, Yorran foi quem de novo fez questão de me ajudar e me guiar até a terra firme. No caminho mostrei a ele que o perfume da rosa ficara em minha mão, e continua até agora. Que o perfume da sensibilidade, da inclusão, das grandes ideias, fique nas mãos, na alma, na vida de todos , e que o Teatro dos Sentidos possa deixar seu rastro bom nos caminhos de cada vez mais plateias!

Feliz Ano Novo está em cartaz na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro até o próximo domingo, dia 28. Já é a segunda temporada do grupo na Caixa; a primeira fez tanto sucesso que foi preciso repetir a dose. Divulgue, convide seus amigos e confira! Na verdade a maior parte do público que tem comparecido não tem deficiência visual, e todos saem maravilhados com a experiência multi sensorial.


Paula Wenke e atores do Teatro dos Sentidos
Teatro dos Sentidos - Feliz Ano Novo
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Av. Almirante Barroso, 25 - Centro
Tel.: (21) 2544-4080
Data: 23 a 28 de novembro de 2010
Horário: 19h30
Valor: R$15 (inteira) e R$7,50 (meia)
Capacidade: 150 lugares mais 4 para cadeirantes
Acesso para portadores de necessidades especiais
Classificação etária: 12 anos