segunda-feira, 27 de junho de 2011

A lição da bola vermelha

A história começou num engano, e nosso engano já começou ali, a caminho da loja de materiais esportivos. Não sei por quê, eu e minha mãe achávamos que a bola terapêutica que eu devia comprar já viria cheia. Chegamos e pedimos a bola. A vendedora trouxe uma caixa tão pequena que pudemos concluir que a bola vinha vazia. Tudo bem. Escolhi uma vermelha. Logo vermelha... Perguntamos: “E como enche?”, e ela respondeu: “Acho que é com bomba de bicicleta, não sei”. Compramos. Era duro ver aquele plástico grosso e maleável todo dobradinho e imaginar que ele poderia ser uma esfera, quase da altura das minhas pernas, que me ajudaria a fazer exercícios físicos, recomendados com urgência para a coluna e circulação. E tal transformação só dependia de uma coisa: encher a bola. Em casa começaram as especulações: bomba de bicicleta, máquina de encher bexiga, posto de gasolina. “Bom, mas se a vendedora falou em bomba de bicicleta, é o que vamos tentar” disse um. “Mas a nossa está quebrada” falou outro. Então pedimos ao vizinho... a dele havia estragado. Ah, lembramos então do vizinho do outro lado... ele não tem mais bomba de bicicleta. E agora? Opa, ainda tínhamos um trunfo: ninguém melhor que o bicicleteiro para ter uma bomba de bicicleta. E quem levaria a bola, ainda “não bola”, até lá? “Levar tudo bem- dizia meu pai –mas como vou trazer essa bola vermelha pela rua? Você não podia ter escolhido uma azul?” A bicicletaria era longe, e não temos carro. Puxa vida, atravessar um bairro carregando uma bola vermelha daquele tamanho... seria mais discreto a melancia no pescoço. Pior que o ridículo, era a falta de jeito para se carregar, caminhando pela rua, um objeto como aquele. E se a bola ainda coubesse numa sacola... é, não faria muita diferença, continuaria sendo uma bola cheia, grande e sem jeito. Recorremos então à idéia do posto de gasolina, que era mais longe ainda. “É só voltar de ônibus” minha mãe argumentava. E meu pai, no contra-argumento, disse “Eu poderia até vencer a vergonha do ridículo e entrar com ela num ônibus sim, mas quem eu acho que não vai conseguir entrar no ônibus comigo vai ser a bola, nem pela janela” Era verdade, nem sabíamos exatamente de que tamanho ela ficaria. Bom, fui fazendo outros exercícios que me ajudassem sem necessidade da bola. Os dias foram passando enquanto nos desdobrávamos pensando em jeitos de solucionar o caso da bola vermelha. Um belo dia, eu estava concentrada em frente ao computador, mergulhada em qualquer assunto de trabalho, quando de repente algo chegou me assustando, quebrando a luz que vinha da janela à esquerda, algo volumoso, enorme e vermelho. Espera aí! Era minha bola vermelha, e cheia! E eu não podia acreditar, olhava e pegava nela sem compreender o milagre. Antes mesmo que eu pudesse falar, perguntar como foi, meu pai, quem a havia trazido, ria gostoso, sonoro, ria do meu susto, ria de nós todos, ria do papel ridículo que nós, seres humanos, fazemos quando complicamos as coisas. “Como? Como você encheu?” eu perguntava. Ele ria mais ainda. Era mesmo ridículo; ele a enchera com seu próprio ar. Como não pensamos nisso antes? Alguém nos disse que talvez a solução fosse uma bomba de bicicleta, ou talvez fosse isso, ou talvez aquilo. E por que nos baseamos nos achismos e opiniões de outras pessoas e limitamos nossos pensamentos e ações subseqüentes sem nem perguntar a nós mesmos o que achamos? Imersos na cultura da burocracia, complicamos quando podemos facilitar, perdemos tempo e muitas vezes dinheiro atrás de maneiras mirabolantes de resolver as coisas, com tanta seriedade, introspecção, peso nos ombros, quando a solução pode estar bem debaixo do nosso nariz. No caso do meu pai, era exatamente ali, debaixo do nariz, que estava a solução: sua boca, que soprou muito, mas muito ar para encher a gorducha. Na boca, em nosso próprio ar, em nosso próprio esforço, num sopro, numa inspiração, numa conversa com uma criança, num sorvete, numa ideia boba que ninguém ousou pensar; as soluções estão aí. O que a gente anda complicando na nossa vida?

Sara sorrindo deitada sobre a bola vermelha e com a cabeça para baixo; sobre sua barriga está sentado Giulio, seu sobrinho mais velho, também sorrindo e de mãos dadas com a tia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Promoção de Aniversário!

Pessoaaaaaal! Chegou o dia! Hoje foi sorteado o ganhador da promoção de aniversário do Boca e estou aqui pra anunciar o leitor que levou uma camiseta do blog e um CD com 10 músicas minhas. Mas antes, digo a vocês que os maiores ganhadores com esta “brincadeira” fomos todos nós: vocês, que puseram a boca no mundo e comentaram, eu, que me emocionei com cada palavra, e o planeta, que recebeu, intimamente, cada uma dessas mensagens, como sempre recebe tudo o que declaramos, fazemos e pensamos. Realmente me surpreendi com o resultado, com as respostas, poemas, inspirações, canções, reflexões que surgiram a partir da “fantasia” proposta; eu sabia que os comentários formariam um belo mosaico da diversidade humana, com participações de diferentes partes do Brasil, diferentes mentalidades, credos, perfis, mas não imaginei que fosse me emocionar tanto... Deu até vontade de fazer uma música! ;) Mas sobre isso conversamos depois, agora quero agradecer a cada um que participou, que apoiou, que parabenizou, que simplesmente leu e ficou com vergonha de participar, que tentou participar mas não conseguiu postar o comentário mesmo depois de 5 ou 6 clicadas no bendito “postar comentário” (já estamos providenciando melhorias), enfim, a todos vocês, com imenso amor, o meu MUITO OBRIGADA!!
E quem levou a camiseta e o CD foi MATHEUS MARTINS! Valeu, Matheus querido, parabéns! Depois de receber seu prêmio, manda uma foto com a camisa pra gente publicar no blog!
Mais uma vez, obrigada a todos vocês, e fiquem de olho que ainda esta semana tem crônica nova no Boca. Ah, e aguardem, pois em Julho tem nova temporada do musical Filhos do Brasil, em sampa! Beijos!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

1 ano de Boca!


Sara sorri para um globo terrestre erguido por suas mãos. Ela veste uma camiseta lilás com o nome do blog, subtítulo e logo

Viva, viva! Vocês sabem que dia é hoje? Hoje é dia de comemorar, o Boca no Mundo faz seu primeiro aniversário! Pois é, um bebê, nascido tão pequeno e humilde, e que em tão pouco tempo de existência, tem me dado crescentes alegrias e cada vez mais lindas trocas com vocês! Querem ver como ele nasceu? Vamos lá no dia 6 de Junho de 2010, exatamente um ano atrás. Aproveito pra agradecer a todos vocês, que visitam, que lêem, que comentam, que participam, que divulgam, que contribuem e que, de uma forma ou de outra, colaboram! Um MUITO OBRIGADA do tamanho do mundo pra todos vocês! :*


E aqui no Boca, em dia de festa, quem ganha são vocês! Tem uma camiseta do blog e um CD promocional, com 10 músicas minhas, doidinhos pra pertencerem a algum leitor do Boca! Pra concorrer é muito fácil: basta comentar este texto respondendo a perguntinha que segue logo mais abaixo. Recebedores por e-mail que tiverem dificuldade pra comentar diretamente no blog, respondam por e-mail mesmo que a gente publica seu comentário aqui no Boca, formando um mural bem rico de respostas de todos os tipos. Pode participar qualquer pessoa, de qualquer idade, credo, condição, estado civil, profissão, mas desde que seja residente em território brasileiro. O sorteio do presente será dia 20 deste mês e o resultado sai por aqui no mesmo dia. Então participem e fiquem de olho...


Uma vez, sonhei que era um gigante, tão gigante que o planeta parecia uma bola em minhas mãos, e eu já não cabia nele, claro. O espaço sideral era gostoso de se sentir, e meu corpo parecia estar submerso em uma piscina, não pesava, mas também não queria boiar, e nem havia superfície para boiar nessa piscina infinita. Meus movimentos eram fluidos, lentos e relaxados, e apenas a ausência de gravidade me sustentava. Eu podia nadar nesse espaço negro, salpicado de estrelas, por entre os planetas, lua e sol. Mas só um planeta me atraía: a Terra, uma bolinha viva e pulsante entre minhas mãos. Eu não podia movê-la; na verdade, nem tocar diretamente nela eu podia, já que em torno de toda a esfera havia uma energia, uma capa magnética, que pulsava, pulsava, emanava calor e luzes de variadas cores. Mesmo assim, eu mantinha as mãos em volta dessa bola pulsante, a acolhê-la. Os sons que vinham da Terra me soavam como pequenas explosões, sobrepostas a um contínuo, misterioso e distante som, como o som que ouvimos dentro de uma concha do mar. E, de repente, tive a consciência de que a Terra podia me ouvir também, incluindo todos os seus habitantes humanos, animais, vegetais, minerais, tudo, desde o peixinho mais fundo no mar até a ave do pico mais alto, passando pelos homens líderes de todos os países, por todas as crianças, por todos os surdos, independente da língua, todos compreenderiam minha mensagem, qualquer pessoa que estivesse andando por uma grande avenida ou que estivesse dormindo, receberia minha mensagem. Então eu abri a boca...


E você? Se um dia estivesse diante do planeta, sabendo que toda a Terra te ouviria, o que você faria?...


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Parceria Ousada

Amigos do Boca! Aqui vai um presentinho de início de semana. Mas antes, explico como tudo começou, afinal um presente assim precioso merece considerações. Os freqüentadores mais assíduos do blog, bem como meus amigos próximos, já conhecem, de tanto ouvirem falar aqui no Boca ou diretamente da minha boca, um italiano pra lá de talentoso e gente boa, o compositor, maestro e pianista Giovanni Allevi, e histórias bem interessantes dele já contei umas 3 por aqui. Hoje conto mais uma, só que esta agora me envolve... Na verdade ela é bem simples, e também cheia de amor. Quase um ano atrás, quando fui apresentada à música instrumental de Giovanni, vivi um reencontro, com a música, com a arte que emociona, comigo mesma e com as imagens; sua música me emociona imensamente, de alguma forma me traduz e me inspira, cria em minha mente diversas e belas imagens, e esse tipo de relato sobre a música dele não é só meu. A vontade de retribuir, agradecer e expressar todo esse bem que me fazia essa arte, que me acompanhou em momentos difíceis, cada vez menores, e me abria para momentos de imensa alegria, cada vez maiores, foi crescendo em mim como um impulso artístico que não pude conter, e, sem que eu pudesse controlar, nascia, sobre as notas de uma de suas composições para piano, uma poesia, que recebeu o mesmo nome da música: Back to Life, afinal, naquele período de recém chegada no apagão, eu estava mesmo voltando à vida. Resolvi então celebrar o momento e gravar meu canto sobre a gravação original dele ao piano, que, aliás, já estava no meu tom e me caía como uma luva. É, a parceria era ousada! Além do mais eu não sabia de nenhuma letra escrita sobre qualquer melodia do compositor e sabia que ele, conforme relata em seu livro e em entrevistas, não é muito dado a parcerias, diz que sua música é ciumenta e caprichosa. Puxa, mas minhas palavras nasceram com tanto amor, e a alegria de cantar aquelas notas ao lado de sua interpretação ao piano fora tão grande e genuína, que algo eu precisava fazer com aquela gravação. E, sem a autorização do compositor, nem de compartilhar com os amigos eu me sentia no direito. E, incentivada pelas poucas pessoas que acompanharam o processo de criação, e correndo o risco de ser processada pelo criador, da música, enviei um CD e uma cartinha ao próprio Giovanni, que, ao fim de um concerto, recebeu o material diretamente das mãos da maninha Leda Bentes, que mora lá na Itália. Legal, estava nas mãos dele. Mas e daí? Muitas coisas chegam às mãos do moço, e ele nem deve ter tempo pra tudo aquilo, e nem tão pouco paciência pra parcerias ousadas. As semanas se passavam e nada... Contentei-me então com de vez em quando curtir aqui sozinha minha parceria não autorizada e esperei o dia em que chegaria uma intimação por e-mail para que eu comparecesse a um fórum italiano da vara de direitos autorais. Ao contrário, recebo um e-mail assinado pelo próprio Giovanni, que parou por alguns minutos sua vida compromissada para ouvir minha “arte”, ler minha carta e gentilmente me escrever, com palavras muito carinhosas, comunicando sua emoção, seu agradecimento e sua autorização para a veiculação da música. Eu nem chorei, pouco... E toda essa comoção não veio só da alegria de agora poder compartilhar com todos a parceria, ou só da confirmação de que o moço é gente boa mesmo; ela veio principalmente do aprendizado de uma lição, que esse artista completo, transbordando sensibilidade não só por sua música, reforçou em mim com seu gesto e com uma frase muito simples no fim de sua mensagem: “Sinta-se livre pra fazer o que o seu coração disser.” Suspirei fundo e feliz, sem medo e certa de que tudo o que é feito com amor e verdade, sempre flui; esta foi minha lição, lição que o universo vive tentando nos dar.
Agora, parceria autorizada, fiquem vocês com Back to Life! (É só abrir o link e a música começa a tocar) E logo abaixo, segue a tradução da letra pra vocês acompanharem. Aproveitem!
Obrigada, maestro Allevi, por seu coração, por sua arte, por sua vida!

Back to Life (tradução)

Aquecida pelo sol
De um poente ao meu redor, ao nosso redor,
Sobre as folhas vermelhas
De um outono que chegou pra mim.

Abraço uma árvore e, você sabe,
Sinto a vida, sinto que isso é melhor que somente ver,
E faz tocar uma canção
Profunda e bela dentro de mim.

A sua voz lê pra mim
Poesias sob uma árvore,
E me diz tudo aquilo
Que você procura às vezes não dizer,
E é mais bonito te ver assim,
Faz tocar uma canção
Profunda e bela dentro de mim.

Refrão:
Ver mais que imagens, luz e cor,
Faz retornar à casa uma canção de amor,
Que me acaricia o coração e depois quer voar,
Por isso eu canto, e mais forte, maior virá...

Mantenho os olhos abertos pra tudo aquilo que devo aprender,
Recolho os tesouros que a vida me dá,
A alegria só tem sentido se puder ser compartilhada,
Por isso eu canto, mais forte, maior, mais belo...

Vem um vento a cantar,
E leva embora os pedaços de mim,
Porque em breve nascerá
A minha nova primavera, você verá...

Feche os olhos e entenderá
Os tantos modos de ver
As coisas belas por onde você andar,
E sentirá esta canção
Tocar forte dentro de você.

Refrão:
Ver mais que imagens, luz e cor
Faz retornar à casa uma canção de amor,
Que me acaricia o coração e depois quer voar,
Por isso eu canto, e mais forte, maior virá.

Mantenho os olhos abertos pra tudo aquilo que devo aprender,
Recolho os tesouros que a vida me dá,
A alegria só tem sentido se puder ser compartilhada,
Por isso eu canto, mais forte, maior, mais belo...

Sara Bentes

domingo, 22 de maio de 2011

Vai uma mãozinha?

Nós, a turma do apagão, andamos pelas ruas da cidade e frequentemente somos ajudados, para atravessar uma rua, para achar um endereço, para encontrar um lugar vago no transporte, para tomar um ônibus e por aí vai. Nessa aventura diária, temos a oportunidade de conhecer pessoas interessantes, de fazer novos amigos, de aprender e de ensinar, e também temos a oportunidade de “passar pelas mãos” de todo tipo de gente... e, com todo tipo de gente, conhecemos todo tipo de ajuda: existe a famosa ajuda superprotetora, oferecida por aquelas pessoas que esquecem que você só não enxerga e querem te carregar no colo, como as funcionárias de rodoviárias que me guiam até o toalete e acham que precisam entrar nele comigo e como o bilheteiro do cinema onde fui semana passada, que simplesmente arrastou a catraca do meu caminho na hora em que eu ia passar. “Mas moço- argumento –eu passo pela catraca! Estou com meu bilhete na mão e também tenho direito a rodar a roleta, registrar a minha passagem por aqui, produzir aquele barulhinho gostoso e único da catraca e dar um pulinho pra frente pra não apanhar dela!” Mentira, não falei nada disso, não quis menosprezar a gentil tentativa de ajuda do tio, apenas sorri surpresa enquanto ele se explicava servil a quem me acompanhava: “Fica mais fácil pra ela passar.” Não tolho esse tipo de ajuda exagerada porque, nesses casos, antes o excesso que a falta, afinal assim como existem essas pessoas que te subestimam, e não é por maldade, existem aquelas que superestimam suas capacidades, pensam que sua bengala tem GPS e que seu ouvido é um radar de última geração que capta até pensamento via blue tooth, capaz de te guiar e te proteger até mesmo na travessia de uma rodovia sem faixa de pedestres em horário de pico. Assim devia pensar o motorista que outro dia fez questão de vir até minha poltrona me buscar para, cheio de cuidados, ajudar a descer os 5 degraus do ônibus, coisa que faço até de olho fechado, :D pra depois me soltar e dizer, em plena plataforma de desembarque do terminal Tietê formigando de gente: “Pronto, agora pode seguir até a escada rolante.” “Mas moço, é justamente aqui onde mais preciso da sua ajuda!” rebato, sem nem ter certeza de que ele ainda está por perto me ouvindo. Provavelmente ele ainda não sabia que é obrigação dos motoristas conduzirem os passageiros com alguma deficiência visual até um funcionário da rodoviária, para ali começar um outro tipo de ajuda: a famosa ajuda de revezamento, onde o bastão, é claro, é o cego em questão. Funciona mais ou menos assim: o motorista te leva até um funcionário da rodoviária, que chama pelo rádio o próximo atleta, ou seja, outro funcionário, que te pega e te leva até um funcionário do metrô, que te pega e te leva até um vagão, de onde, na sua estação de destino, ainda um outro funcionário te pega para finalmente concluir a prova te deixando numa catraca ou nas mãos de alguém que esteja à sua espera. A única diferença para uma prova de revezamento profissional, é que neste caso os atletas não costumam correr, e muito menos ter pressa, afinal cego nem sabe correr, nem trabalha, nem estuda, nem tem horário nem encontro marcado; pra quê pressa? E nessa mentalidade, de um serviço de auxílio que às vezes funciona e às vezes não, a gente se atrasa e perde até compromisso. A ajuda do revezamento de bastão é muito freqüente também nos pontos de ônibus, principalmente naqueles dias de muita sorte, quando o seu ônibus é o último a passar e até então você passou pela “tutela” de umas doze pessoas que tiveram mais sorte que você e foram embora antes, uma a uma em seus respectivos ônibus, mas sem esquecerem de passar “o bastão” pra quem continuava no ponto... E por falar em ônibus, este é um local onde é muito comum a famosa ajuda fantasma, que é quando você procura um banco vago ou uns centímetros de tubo de metal pra se segurar e uma mão, silenciosa, vem e te puxa para um lado ou para outro e te empurra até um lugar desocupado. Você até diz “oi” e tenta fazer contato, perguntar algo, mas o ajudante misterioso não diz um “A”, prefere ficar no silêncio e no anonimato e não te dar o direito de saber quem está te guiando. Bom, mas pelo menos o ser te ajudou, e então você, já sentado, agradece, e segue viagem se perguntando se acaba de ser guiado por um ser humano, ou por um fantasma, ou por um alien. Ou quem sabe por uma pessoa muda? Do jeito que anda essa tal de inclusão, não é nada difícil... Certa vez eu estava num lugar bem amplo e precisei ir ao banheiro. Eu tinha baixa visão. Meus amigos perguntaram se eu queria uma ajudinha pra chegar lá, e eu, toda confiante, disse: “Não, obrigada. Já fui ao banheiro daqui e acho que lembro o caminho. Além disso quem tem boca vai a Roma, a Paris e ao banheiro.” Só que o lugar era realmente muito amplo e de fato me perdi. E, pra piorar, não parecia haver ninguém por perto, pra justificar a minha boca e me ajudar a chegar a Roma; afinal, quem tem boca vai a Roma, mas se no caminho tiverem outras bocas pra dar a informação;) Rodei, rodei, até que ouvi sons, que pareciam vir de um humano: respiração, passos. Aproximei-me feliz e pedi: “Oi! Por favor, você pode me dizer onde é o toalete?” Mas não ouvi resposta. Repeti; vai que a pessoa não havia compreendido e estava sinalizando sua dúvida com um gesto de cabeça ou uma expressão facial que eu não podia ver. Mas continuei tendo o silêncio como resposta. Até que, após a terceira tentativa, desconfiei estar diante de uma situação bastante provável ali naquele congresso de pessoas com todo tipo de deficiência: eu pedira informação para um surdo... eu perguntava e ele não ouvia, ele sinalizava e eu não via! O fim da história? Pra nossa sorte naquele tempo eu já havia aprendido alguns sinais emergenciais, e “banheiro” era um deles. Falei na língua dele o que eu precisava e ele então pôde me ajudar, e me levou até lá.
Existe também a ajuda de fada, que é a daquelas pessoas que simplesmente mudam seu próprio trajeto e param sua vida pra te ajudar. Desse tipo de ajuda, graças a Deus, já tive muitas. Outro dia mesmo, na paradinha do ônibus pra São Paulo, fui ajudada por uma dessas fadas. Perguntei o nome dela e era Ada. Quis saber o significado e ela disse o que eu já sabia: era Fada. E quando nos despedimos, agradeci; e ela, com a voz cheia de sorriso, respondeu: “Obrigada você, por me deixar te ajudar.” Essas ajudas de fada, repletas de troca, amor e vontade, a gente nunca, nunca esquece... Por outro lado, as ajudas tortas, aquelas dadas com a maior das más vontades, às vezes também são difíceis de esquecer... principalmente quando vêm de pessoas queridas e que no fim sempre tomam uma lição, e dão com a gente boas risadas. Eu era adolescente e fui tomar um dos dois ônibus que passavam no ponto mais próximo da minha casa. Como era um ponto frequentemente deserto, minha mãe mandou comigo minha irmã, para me colocar no ônibus certo. Provavelmente ela, minha irmã, teve de interromper algo que fazia pra ir acompanhar a chata da irmã mais nova até o ponto e, com a tromba batendo no pé, subiu a rua comigo, muda. Chegando no ponto, vazio, esperamos sós por alguns minutos, até que uma senhora bem velhinha chegou e se sentou também. Foi aí que tive a brilhante e óbvia ideia, que compartilhei com minha irmã: “Se ela for pegar o mesmo ônibus que eu, você fica liberada.” Perguntei então à velhinha se ela esperava o ônibus tal, e, para a alegria geral das irmãs, ela disse que sim. Num solavanco, minha irmã se levantou e tomou rapidamente o caminho de volta pra casa. E eu já nem ouvia mais seus passos quando a velhinha virou-se novamente pra mim e complementou sua resposta dizendo: “Só que ce tem que vê pra mim porque eu num sei lê não, viu, minha fia?” É, agora eram duas numa enrascada... Mas ainda deu tempo de minha irmã ouvir meus gritos por seu socorro, voltar e salvar a pátria. No fim das contas, tudo acaba bem e estamos todos aí pra aprender. Ajuda torta, ajuda capenga, ajuda superprotetora, ajuda subprotetora, ajuda infantil, ajuda fantasma, ajuda curiosa, ajuda apavorada, ajuda intrometida, enfim, apenas pessoas boas cruzam o meu caminho, como instrumentos de Deus e do meu anjo da guarda, e eu agradeço de coração a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, deram uma mãozinha, um bracinho pra me guiar, um olhinho pra enxergar por mim, a todos aqueles que tentaram mas não puderam ajudar, aqueles que podiam mas, por medo, nem tentaram ajudar, o meu MUITO OBRIGADA!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fotografias Poéticas para todo o Brasil!

A foto mostra uma visão geral das mesas e do público presente no Salsa e Cebolinha, na Lapa

Saudações poéticas, amigos, leitores, assinantes e freqüentadores do Boca! Pois é, queridos, as fotografias poéticas continuam viajando e os saraus continuam sarando por aí... O sarau de lançamento do livro na cidade maravilhosa foi mais uma grande festa de talentos, de boas energias e muita luz! O restaurante Salsa e Cebolinha, decorado com quadros de ninguém menos que Ziraldo, com um pianão de verdade e um clima bastante intimista, foi o ambiente perfeito para toda aquela diversidade artística.

Sara canta acompanhada do violonista Júlio Ribeiro e do pianista Luiz Otávio, no espaço do Salsa e Cebolinha
Teve música, leitura, declamação, performance e até contação de história! Quero agradecer aqui a todos os músicos e compositores, todos os atores, escritores, poetas, ledores e contadores de história que compuseram esta festa e iluminaram de ideias, emoções e encantos a noite de cada um que esteve presente. Um muito obrigada mais que especial também a cada um de vocês que compareceram para prestigiar e enriquecer este momento tão importante em minha existência! Rever amigos antigos e tão amados, comprovar o carinho e fidelidade das novas amizades e ter o calor do abraço de cada um foi meu grande presente!

Na foto, Marcondes Mesqueu fala ao microfone, com um cd nas mãos escrito Sara, e a própria ao seu lado.

Um obrigada do tamanho do mundo ao querido amigo Marcondes Mesqueu e ao seu filho Vinícius Mesqueu, por todo o apoio, esforço e imenso carinho! Um obrigada igualmente gigante ao jornalista e escritor Toninho Vaz, que assina o prefácio do livro e também marcou presença no sarau de lançamento! Obrigada ainda a todos que, de uma forma ou de outra, participaram de mais essa conquista e ajudaram a tornar possível a concretização deste trabalho!



Público assiste apresentação de Maria Rosa - formada por Caró Lago e Alice Souto, poetas

E pra quem não compareceu ou não pôde adquirir o livro, conto que ele está à venda, nas versões impressa e digital, no link:

Com entrega para todo o Brasil. E também na livraria Veredas, em Volta Redonda.

Acesse e divulgue também entre seus familiares e amigos! As Fotografias Poéticas de um Olhar Viajante estão esperando pra encher a vida de todos de novas cores, novos olhares, encantos e muita poesia! Leiam e venham me contar o que lhes fez sentir este filhote feito com tanto amor!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Hino Nacional bilingue?

Bom, como eu disse, promessa é dívida. E aqui está, especialmente pra vocês, minha interpretação do nosso hino nacional, em português e em Libras! Mas antes, aproveito pra compartilhar algumas informações interessantes que, infelizmente, poucos brasileiros têm: ao contrário do que muita gente pensa, a língua de sinais NÃO é universal, cada país desenvolveu a sua. E a nossa é a Libras – Língua Brasileira de Sinais. Importante lembrar: língua não é linguagem, e sinais não são gestos. A LÍNGUA de sinais é um outro idioma, com outra estrutura, outra identidade, e não é uma correspondência da língua falada no país; no caso a Libras não é uma adaptação do português para os sinais. E a língua de SINAIS não se limita a movimentos das mãos, ela é também expressão facial e corporal, e por isso não pode ser chamada língua de gestos. Agora o que todos os brasileiros precisam saber: a Libras é um idioma OFICIAL no Brasil, assim como o português. Nos Estados Unidos os surdos têm a ASL – American Sign Language, na Itália, a LIS – Lingua Italiana dei Segni, e assim por diante. No Brasil temos a Libras, e jamais pode ser imposto a um surdo que deixe de falar a Libras, a sua língua natural e de direito. E pra quem acha que é capricho de surdo lutar pela língua de sinais, já que eles podem muito bem fazer leitura labial e aprender a falar mesmo sem ouvir, como um ou outro surdo que a maioria de nós conhecemos, é bom saber que uma minoria deles tem meios de pagar uma boa fono que os ensine a falar. Mas eles podem ao menos aprender a se comunicar pela escrita e ler as legendas da televisão- é o que a maioria pode argumentar. Então agora vai uma explicação surpreendente e delicada: quase todos os surdos de nascença não compreendem o português, e vivem completamente alheios à informação em massa e aos livros. Isso não tem nada a ver com a capacidade intelectual deles, tem a ver apenas com a ausência de um sentido fundamental para o aprendizado de um idioma falado. Imaginem-se por exemplo tentando aprender a ler chinês. Só que vocês não têm um professor, nem vídeos na internet, nem ninguém que diga o que quer dizer ou que som tem cada ideograma. E aí, como vocês não têm na mente nenhum registro de som associado a qualquer um daqueles desenhozinhos, fica um pouquinho difícil, não fica? Isso é só para comparar, ridiculamente, à situação do surdo de nascença, que além de não ter nenhum registro sonoro do idioma falado em seu ambiente, não tem registro sonoro de nada. É muito fácil pra quem escuta, julgar uma situação desconhecida e querer que uma minoria, no caso os surdos, aprenda a língua da maioria, ou seja, o português, para assim então se integrar. Só que mais fácil ainda, eu garanto, é uma maioria, com muito mais acesso à informação, aprender uma nova língua, muito bonita, simples e eficaz. Aliás, diga-se de passagem, muito mais fácil que a “língua do futuro”. Está aí, a língua do presente pedindo pra ser falada, ou sinalizada, oferecendo novos conhecimentos, horizontes, interações e possibilidades. Então, vamos em frente, brasileiros!


Obrigada ao meu mestre Fabiano Campos e a todos os amigos surdos que, pacientemente, ensinam-me sempre mais e se comunicam comigo através do tato. Com vocês, o hino nacional brasileiro!