quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Vai dar tudo certo! (Se não der tudo errado...) 3

Promoção Uma Música Só Pra Você!

Você já sabe da novidade, não sabe? Dia 25 de fevereiro será o lançamento online do meu novo CD, o “Invisível”! Mas, enquanto isso, você pode ser o felizardo que vai ganhar e ouvir uma faixa inédita do CD antes de todo mundo! Pra concorrer a este presente exclusivo é facílimo: clicar aqui http://www.sarabentes.com.br/page/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo-errado/ e comentar o texto lá, ou qualquer um  dos textos da série deste mês de janeiro, e torcer pra ser sorteado!
Podem participar: pessoas de qualquer idade, residentes em qualquer país.
Promoção válida até 31 de janeiro. Boa sorte, boa leitura e divirta-se!



Assim como a arte, a vida e as pessoas são inexatas e surpreendentes. E que bom que é assim! Por isso mesmo é que muitas vezes, com nossas expectativas e previsões erradas, somos positivamente surpreendidos. Foi assim, com uma surpresa dessas, que fui selecionada pra participar do projeto Percepções, exibido no programa Fantástico – Rede globo em 2005/2006. O instituto que promoveu o projeto pediu a uma consultora que indicasse uma lista de candidatos com o perfil aventureiro, independente e arrojado que a vaga pedia. A consultora, uma amiga antiga minha e da minha família, apresentou uma lista e, por último, talvez só pra preencher espaço, já que ela achava que eu não tinha nada a ver com o perfil, estava meu nome. Bom, depois de alguns meses, após entrevistas com vários candidatos, lá estava eu, selecionada pelo instituto e embarcando no projeto Percepções, um divisor de águas na minha vida, viagem intensa de 3 meses por 9 países da América do Sul.

Veja um videoclipe do Percepções aqui: https://www.youtube.com/watch?v=j49wexpHfWk
Porém não é sempre que essa mesma inexatidão humana nos traz positivas surpresas... Quando o assunto é uma gravação de um telejornal por exemplo, é bom que seja tudo o mais exato possível. Mas não foi bem assim comigo numa gravação externa do telelibras, telejornal online da ong Vez da Voz, há alguns anos...

Sara Bentes e o intérprete... Qual é mesmo o intérprete?

Pra quem não conhece, o Telelibras é um modelo totalmente acessível de telejornal, onde apresentador e intérprete de libras – língua brasileira de sinais, dividem o mesmo espaço e figuram no mesmo plano. Pra isso, o intérprete está sempre ao lado do apresentador e traduz simultaneamente. A mesma coisa ocorre nas matérias externas, e, em eventos longos e movimentados, o Telelibras contava com o trabalho de dois ou mais intérpretes de Libras, que se alternavam ao lado do repórter nas gravações. Ao fim de toda matéria, o repórter se apresentava e apresentava o intérprete ao lado. A repórter da vez era eu, e o intérprete... Hum, o intérprete... depois de umas dez entrevistas, cada uma traduzida por um intérprete diferente, quem era mesmo o intérprete que me acompanhava? O intérprete de Libras em geral se mantém silencioso enquanto sinaliza, então eu não podia me orientar por sua voz. Puxa, se ao menos ele estivesse do meu lado, eu poderia tentar identificá-lo pelo cheiro. Mas não, ele estava à direita do entrevistado, que estava à minha direita. Eu me concentrei em tudo, no foco para a câmera, na altura da pessoa para oferecer a ela o microfone sem golpeá-la, nas perguntas e respostas, tudo fluindo perfeitamente bem numa entrevista riquíssima, até que: “Sara Bentes e a intérprete Rafaela Sessenta para o Telelibras!” Ouvi um sonoro “Ahhhhh” de toda a equipe e a risada do Fabiano Campos, o intérprete da vez, e não acreditei no que acabara de fazer. A Rafaela Sessenta já tinha ido até embora. E aí, tome risadas, e fôlego pra gravar tudo de novo...
Bom, ao menos não era ao vivo; ufa! Porque em vexames em cena ao vivo já estou ficando diplomada. E este que estou para contar a vocês é, sem dúvida, o pior vexame em cena da minha história até aqui...

“Cantora Desenvolve Estranha Modalidade de Canto”

Uma matéria de jornal relatando o triste fato começaria bem assim. Mas, graças a deus, nenhum jornal sensacionalista reportou o ocorrido naquela noite de jantar solene na reunião de um dos Rotary Clubes de Volta Redonda. Os trajes eram ternos e longos, o ambiente era elegante e de luzes indiretas, o cardápio trazia algo ao molho madeira, os senhores, senhoras e suas famílias eram educados e gentis, tudo apontava para um impecável acontecimento rotariano. Ah, claro, um detalhe importante (que na verdade é o pivô da confusão), o jantar impecável tinha música ao vivo, voz e violão; e, lamentavelmente, eu era a cantora em questão, e o violonista era meu querido amigo Adriano Pinheiro. Bom, pra tanta elegância, preparamos um repertório fino, começando com uma bossa nova do Caetano Veloso. Nos posicionamos diante de todos, ajeitamos violão e microfone e todos fizeram o mais absoluto silêncio em suas mesas para nos prestigiar. O problema foi que um amigo antigo da família, membro do clube, fez questão de me apresentar lendo um breve release da minha trajetória artística. Ele pegou o microfone e, simpaticamente, começou a ler. Todos ouviam atentos, enquanto eu e Adriano exibíamos um elegante sorriso de comercial de creme dental, ansiosos pra começarmos logo a cantar; e tudo ia muito bem, até que o amigo se deparou com a frase: “Sara Bentes canta com a banda sinfônica da CSN” Na verdade ele nem chegou no “sinfônica”, porque já na “banda” ele, displicentemente, realizou uma pequena troca de vogais, substituindo o primeiro “A” por um sonoro “U”. Pois é, isso mesmo, ele declarou em alto e bom som essa frase aí que vocês conseguiram imaginar... É incrível como toda aquela elegância, toda aquela nobreza, toda aquela fineza, tudo se transformou tão repentinamente numa gargalhada coletiva de perder o fôlego... Eu, que já não gosto nadinha de rir, não vi outra saída senão me acabar de rir também, seguida pelo Adriano, que também adora um mal feito. O apresentador até tentava se recompor e se desculpar, mas nem era mais ouvido, e só foi conseguir terminar de ler meu release após alguns minutos, quando todos já se acalmavam um pouco, mas só um pouco, a crise de riso ainda estava à espreita no salão. Quando ele, ainda rindo também, terminou sua tarefa e nos deu a vez, eu me esforçava pra voltar a me concentrar, mas, sabendo que seria como uma missão impossível, eu disse ao Adriano, que também não parava de rir: “Pro espaço a bossa nova do Caetano e manda logo um forró aí”.

E foi assim que uma noite de gala se transformou no pior vexame da minha vida... Se de toda experiência podemos extrair um aprendizado, nessa aí aprendi que, se você for cantar ao vivo e o apresentador for ler seu release, nunca escreva nele que você canta com qualquer banda, nem que seja a banda oficial do presidente da ONU, mas invente outro nome, escreva “grupo instrumental”, ou o arcaico termo “conjunto”, ou omita o fato, sei lá, qualquer coisa, mas “banda” jamais!

No próximo episódio: um “terremoto” no cenário e eu pendurada a 12 metros do chão; e o dia em que quase liquidei todo o elenco do teatro; até a próxima semana!

Leia o episódio 1 aqui: http://www.sarabentes.com.br/page/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo-errado/
Leia o episódio 2 aqui: http://www.sarabentes.com.br/page/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo-errado-2/

Comente e concorra a uma música inédita do “Invisível”, o novo CD da Sara. Compartilhe com seus amigos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Vai dar tudo certo! (Se não der tudo errado...) 2

Promoção Uma Música Só Pra Você!

Você já sabe da novidade, não sabe? Dia 25 de fevereiro será o lançamento online do meu novo CD, o “Invisível”! Mas, enquanto isso, você pode ser o felizardo que vai ganhar e ouvir uma faixa inédita do CD antes de todo mundo! Pra concorrer a este presente exclusivo é facílimo: clicar aqui http://www.sarabentes.com.br/page/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo-errado/ e comentar o texto lá, ou qualquer um  dos textos da série deste mês de janeiro, e torcer pra ser sorteado!
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Promoção válida até 31 de janeiro. Boa sorte, boa leitura e divirta-se!

Vai dar tudo certo! (Se não der tudo errado...) 2



Há males que vêm pra bem. Já dizia meu pai nos meus 10 anos de idade, quando fui forçada a trocar de escola porque a direção da escola onde eu estudava desde os 6 decidiu que ali não era mais meu lugar, que eu atrapalhava o restante da turma etc. Enfim, coisas que me deixaram muito triste na época e lamentei deixar pra trás meus amiguinhos. Mas foi na nova escola, 2 anos depois de meu ingresso lá, que tive meu primeiro contato com técnicas de canto e encontrei espaço e incentivo pra começar a cantar em público, e dali não parei mais. Bom, ali eu já entendi o ditado que meu pai tanto me repetiu. E, ao longo da minha trajetória, fui entendendo que na arte, inexata e subjetiva, o ditado também se aplica e que, frequentemente, um “erro” vem a se tornar a cereja do bolo, o toque que faltava, um gol de placa!

Tá errado mas tá mais bonito! 

Exemplo disso foi o que aconteceu na faixa número 1 do nosso CD infantil, o “Faz Sempre Sol”. Arranjo pronto, todos os instrumentos gravados. Só que, pra ganhar tempo, o violino e a flauta não gravaram todas as repetições do refrão; afinal a tecnologia está aí pra nos ajudar e, com o bom e velho ctrl C ctrl V, a gente ganha um tempão de estúdio. Quando o Júnior, nosso operador de estúdio, foi colar o trechinho de violino que cantava junto com a voz, sem querer ele colou num outro ponto, entre uma frase e outra de voz, e ficou como um contracanto de violino. “Opa, desculpa, tá no lugar errado” ele disse, já se apressando em descolar o violino dali. Eu e todos os músicos no estúdio, encantados com o efeito inesperado do violino no lugar “errado”, protestamos: “Não, não, não! Deixa aí. Tá errado mas tá mais bonito!” Ouvimos de novo e, rindo muito, todos concordamos que assim estava melhor. O Fred Portilho, nosso violinista, gravou mais uma pequena frase de violino só pra criar uma conexão entre o novo arranjo e o antigo e pronto! Agradecemos ao Júnior pelo “erro” e no segundo refrão da  música, “O Maior Brinquedo do Mundo”, figura pra sempre assim, o violino no lugar errado porém muito mais bonito.
A música tá no Youtube, num clipe que foi super divertido de fazer: http://www.youtube.com/watch?v=CeR4-IrI0Q8
E tá no Soundcloud, onde dá pra ouvir melhor os detalhes: http://soundcloud.com/sarabentesoficial/o-maior-brinquedo-do-mundo

Por outro lado, há quem defenda a ideia de que a música não passa de uma grande matemática, e muito exata. Apesar de não gostar deste conceito, concordo que muitas vezes um pequeno erro de cálculo na música e uma notinha inesperada podem desandar tudo e até derrubar um cantor da canção. Foi o que aconteceu comigo e meu amigo violonista Eneas Resende num show ao vivo em Juiz de Fora há alguns anos...

Quem Disse Que O Show Não Pode Parar?

A música era cabeluda sim, de harmonia traiçoeira e melodia complexa, mas uma música linda, com grande extensão vocal e que permitia a demonstração de interpretação e técnica mais rebuscada, tanto para o cantor quanto para o instrumentista. A música se chama “Sou Sua Sabiá”, de Caetano Veloso; a cantora, no caso, era eu; e o instrumentista... Ah, o instrumentista... era meu talentosíssimo amigo Eneas Resende, que esbanja criatividade e técnica no violão, muito mais técnica do que eu na voz. Estávamos mais que acostumados a tocar aquela canção, naquele dia porém talvez ele estivesse mais “criativo” que nos outros, e resolveu inventar uma firula justamente num acorde crucial pra uma modulação de tonalidade no meio da música. Bom, a partir daí já dá pra imaginar o que aconteceu, né? O trem descarrilou e fomos um pra porto alegre e o outro pra salvador. Apesar da firula, ele modulou pro tom certo, pois ali no violão sim a matemática é mais exata e ele sabia exatamente em que casa do braço do violão devia montar o acorde; já na voz e na percepção musical a coisa não é tão exata assim, e meu ouvido dependia da dica do acorde crucial dele pra modular o tom, acorde onde ele fez a firula e me confundi, fiquei sem chão, e modulei pra um tom que definitivamente não era nenhum dos 12 que conhecemos aqui no ocidente... E aí passamos os 3 acordes seguintes tentando encontrar um ao outro, eu tentando me acalmar pra perceber o tom do violão e ele tentando perseguir o tom da minha voz; um verdadeiro cataclisma musical. Até que ele, sabiamente, decidiu abreviar o sofrimento nosso e o do público: parou de tocar e me disse a clara voz, sem qualquer constrangimento, como quem chama a amiguinha pra brincar: “Sarinha, vamos começar de novo?” Meu deus, o que dizer ao público nessas horas? Como reconquistar o apoio da plateia depois de parar uma música no meio? Essas interrogações e mais algumas se embaralhavam na minha cabeça naqueles segundos que se pareceram uma eternidade. Enfim, inspirada pela cara de pau do Eneas e iluminada talvez por santa Cecília, falei, no mesmo tom descarado do meu amigo: “Desculpa, gente, mas é que o Caetano Veloso merece que a gente comece de novo e faça melhor.” A plateia nos aplaudiu generosa e recomeçamos do zero, agora sem grandes firulas ou pequenos sufocos.

Assim seguimos, sobrevivendo aos desastres musicais e aprendendo com as experiências e com nossos companheiros. Aprendi e aprendo muito com meu amigo Eneas e aprendi também que somente passando por desafios assim é que desenvolvemos a serenidade necessária pra estar em cena e encarar os próximos desafios, em geral, maiores que os que já encaramos até aqui...

Na próxima semana: quando o cansaço e as repetições te fazem vacilar na concentração e estragar uma cena inteira, quando o apresentador distraído te proporciona o pior vexame de sua vida... Até o próximo episódio!

Leia o episódio 1 aqui: http://sarabentes.blogspot.com.br/2015/01/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo.html

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Vai Dar Tudo Certo! (Se Não Der tudo Errado...)



Promoção Uma Música Só Pra Você!

Você já sabe da novidade, não sabe? Dia 25 de fevereiro será o lançamento online do meu novo CD, o “Invisível”! Mas, enquanto isso, você pode ser o felizardo que vai ganhar e ouvir uma faixa inédita do CD antes de todo mundo! Pra concorrer a este presente exclusivo é facílimo: clicar aqui http://www.sarabentes.com.br/page/vai-dar-tudo-certo-se-nao-der-tudo-errado/ e comentar o texto lá, ou qualquer um  dos textos da série deste mês de janeiro, e torcer pra ser sorteado!
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Promoção válida até 31 de janeiro. Boa sorte, boa leitura e divirta-se!

Vai Dar Tudo Certo!
(Se Não Der tudo Errado...)

Principalmente nos momentos difíceis, é tudo o que a gente quer ouvir: Vai Dar tudo certo! Mas pode esperar, que eventualmente aparece aquele metido a engraçadinho que vai completar: “Se não der tudo errado”, que costuma ser o mesmo tipo que diz: “É assim mesmo, depois piora”. A verdade é que na vida nem sempre tudo dá certo mesmo. Ah, claro, a não ser na vida dos artistas, sempre maquiados, sorridentes, sem gaguejar uma letra na cena da novela e sem desafinar um milímetro naquela nota ultra aguda, certo? Errado! Assim como as mocinhas também soltam gases e os heróis também ficam de nariz entupido, vida de artista nem sempre é poesia... E que bom que é assim, porque a arte, inexata e cheia de surpresas e caprichos, vem nos ensinar que o dar certo ou dar errado pode ser só uma questão de ponto de vista.

Neste mês de janeiro, compartilho com vocês alguns episódios “inesquecíveis” da minha trajetória até aqui, divididos em 4 capítulos, porque tem é história... Também, já comecei toda errada, fui inventar de nascer logo no dia 1 de Abril, dia da mentira. Pode-se dizer então que sou uma mentira que deu certo. Depois inventei de ser artista, e brilhar e fluir pelos palcos sem nenhum enrosco. O que podemos chamar de uma verdade que deu errado... Enrosco foi o que não faltou no último dia da temporada do espetáculo circense “Belonging”.

Gosto que me enrosco 

Lembram daquela do Zeca¿ “Gosto que me enrosco num rabo de saia...” Seria a trilha sonora perfeita se a cena fosse uma comédia. Mas não era... Bem que o Andrezinho Carioca, meu companheiro de cena, cantou a pedra já no primeiro ensaio com figurino: “Cadeira de rodas e saia longa não combinam.” Mas demos nossos jeitinhos e criamos uma coreografia em que o movimento das rodas dele iam sempre em sentido contrário ao da cauda de meu vestido de noiva. Tudo deu sempre certo nos ensaios, logo, nos espetáculos também haveria de dar. E assim foi por três temporadas, até o penúltimo dia da terceira... Talvez eu tivesse sido acometida pela síndrome do último dia e tivesse caído num “relaxamento” por ter dado tudo certo até ali, e acho que, ao subir na cadeira do André para o primeiro movimento da dança, não puxei cauda de vestido suficiente pra cima... Começamos a bailar, lindos e românticos. De repente sinto um puxão na saia. Sem me abalar, dei uma cutucada nas costas do André com a mão que já segurava ali, enquanto a outra desenhava lentamente um arco no ar. Ele entenderia meu sinal, já previamente combinado, e inverteria a direção da cadeira, pra desenroscar o pedacinho de vestido que havia enroscado. O André é paraplégico, e não sente nada de certa parte das costas pra baixo. Talvez eu o tenha cutucado na certa parte, ou seja, na parte errada, porque ele não respondeu ao meu sinal. Conforme o puxão na minha saia aumentava, eu aumentava a intensidade e a área da cutucada, ao mesmo tempo em que continuava bailando e sorrindo gloriosa ao som dos violinos. Agora André entendia meu sinal e movia a cadeira de diferentes formas, tentando livrar a rodinha da frente do emaranhado de tecido, filó e rendas que se apoderavam dela. Não adiantava, a coisa só complicava e ele não tinha mais pra onde se mover, qualquer movimento parecia enroscar ainda mais pano na roda. Também sorrindo, majestoso e romântico, André proferiu em sussurro um resumo da nossa dramática situação: “Amiga, fodeu.” Inventando agora uma parte nova da coreografia, distraí o público com um dos braços em suaves movimentos, enquanto o outro se dobrou pra trás, desligando o captador do microfone headset que eu levava preso em mim, assim eu e André poderíamos conversar disfarçadamente pra tentar solucionar o caso do enrosco. Já ouvíamos os burburinhos do público, incomodado por perceber que algo ali não estava no planejado. Ou estava? Afinal aquilo era circo, e em circo tudo pode acontecer. Sem microfone aberto, agora podíamos nos comunicar melhor, mas sempre sorrindo e dançando. Discutíamos algumas possíveis saídas, mas nada convinha segundo pudemos raciocinar com urgência, e por fim ele disse: “Amiga, não tenho o que fazer, não sei o que fazer.” Movida pelo desespero daquela frase, sem pensar muito, comecei a inventar uma outra nova parte da coreografia, lembrando-me do que aprendi na essência mais clássica do ballet tradicional, desci ao chão num suplex com um plié, misturado com um “desenrosqué”, meti as mãos na rodinha e comecei: puxa pra lá, empurra pra cá, roda pra cima, pra baixo, desroda, vira, enquanto ele empinava um tiquinho a cadeira pra que a rodinha da frente ficasse fora do chão, facilitando meu trabalho tátil. Pareceu uma eternidade, mas o que parecia impossível se desenrolou em alguns segundos. Ainda sorrindo, agora com toda a minha alma, levantei e concluímos a cena. Durante o sufoco, a música já tinha avançado bastante e não tivemos tempo de dançar o restante da coreografia, a parte mais bonita. Mas tudo bem, a parte mais bonita ali ficou por conta de mais uma vitória da parceria humana sobre o enrosco nosso de cada dia. Uma não enxerga, o outro não anda, mas unidos nos completamos e vamos longe! (De preferência sem mais enroscos...)

Ao fim do espetáculo, os “amigos” que estavam na plateia perguntavam se aquilo fazia parte ou não da cena e se lamentavam por não terem filmado a melhor cena, segundo eles, de toda a temporada! Mas a cena sem enrosco foi filmada, e, se você quiser conhecer, está bem aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UeyeVr3xH2M

No próximo episódio, meus enroscos musicais: quando um erro musical torna-se um grande acerto, quando seu violonista tenta te derrubar no meio do show. Até semana que vem!

Comente e concorra a uma música inédita do “Invisível”, o novo CD da Sara!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Melhor Ano de Nossas Vidas


Mais um ano chega ao fim. Coisas a comemorar, coisas a lamentar, coisas a rever, coisas a aceitar; tudo bem, essas coisas todas cada ser humano tem. O importante é que essas coisas todas são nossa vida, sendo vivida, são nossas almas, sendo desafiadas a crescer, sendo experimentadas, aprendendo. Mais importante ainda: o que quer que tenhamos feito de nossas vidas neste ano que se finda, todos temos a grande oportunidade de fazer melhor nesse ano que chega...

Meus votos pra cada um de vocês está no fim do texto, numa mensagem que escrevi com muito carinho especialmente pra este momento. Mas antes, quero contar algumas coisas pra vocês; vocês, que estiveram por perto por mais um ano e que são a razão da minha arte e do meu trabalho. Este ano, com o apoio de vocês, tivemos avanços e novidades:

- Em janeiro, já abrindo o ano com surpresa, lançamos meu primeiro videoclipe, da música “Quem Pode”, do álbum “Em Frente Ao Planeta”. O clipe ta aqui: http://www.youtube.com/watch?v=SjC6UqRr9BY

- Em abril, depois de um intenso trabalho no Circo Crescer e Viver, estreamos em Londres o espetáculo “Belonging”, que, no mês seguinte, foi apresentado no Rio de Janeiro e em São Paulo. No espetáculo, cantei, atuei, dancei e estreei na lira, equipamento aéreo: http://www.youtube.com/watch?v=IaBG0TUFgqw

- Em setembro, lançamos o tão esperado videoclipe da minha música “Pra Te Ver Dançar”: http://www.youtube.com/watch?v=lJr4KNd-HWs

 - Agora no dia 2 de dezembro, dia nacional do samba, lançamos oficialmente meu samba “Choro Sara”, na versão que compõe meu novo CD, o “Invisível”. O Choro Sara ta aqui: http://soundcloud.com/sarabentesoficial/choro-sara-sara-bentes

Além, é claro, das participações como atriz no Teatro Cego, das apresentações cantando nos diversos eventos Brasil afora, das palestras, aulas e oficinas de canto, e dos estudos artísticos pra trabalhar sempre melhor pra vocês; E , um segredinho: este ano, com seus desafios e dificuldades, foi extremamente produtivo e inspirador pra novas composições, que em breve estarão prontinhas só pra vocês... E não paramos por aí! Neste ano, recebi meu registro como atriz, adquiri meu CNPJ e passei a emitir nota fiscal, voltei a escrever no nosso querido Boca e fizemos, pra vocês, diversas atualizações e melhorias no nosso site; agora, no www.sarabentes.com.br você encontra muito mais informação, as letras das minhas músicas, promoções frequentes e mais interação comigo, que tenho me empenhado em manter com todos uma comunicação cada vez mais fluida e imediata.

E, falando em interações possibilitadas pela tecnologia, novidade: minha música agora está disponível para o mundo! Os CDs “Faz Sempre Sol” e “Em Frente Ao Planeta” estão no Itunes e em dezenas de outros sites de venda de música. E, pra facilitar, tanto na compra do mp3 quanto na compra do CD tradicional, e na compra dos meus livros, em versões impressa ou digital, criamos uma nova loja, organizada, prática e muito mais simples de usar: http://www.sarabentes.com.br/page/loja/ Neste mês de dezembro, pra quem quer presentear com arte e boas energias, com trabalhos feitos com muito amor aqui mesmo no nosso país, qualquer livro impresso ou CD físico que for comprado na nossa loja, irá com um autógrafo personalizado!

Agora, pra finalizar, o que vem por aí: em janeiro próximo, vocês poderão acompanhar aqui no Boca a série “Vai Dar Tudo Certo (Se Não Der Tudo Errado)”, uma série semanal onde contarei os episódios mais desastrosos e cômicos que já vivi nos palcos e bastidores. Ainda no início do ano, meus dois videoclipes já lançados ganharão versões com audiodescrição! Graças a uma parceria com dois grandes audiodescritores do país, aos quais desde já agradeço com toda a minha alma. Em fevereiro, dia 25 (marque isso na sua agenda), meu novo CD, o “Invisível”, será lançado no Itunes! Veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=LMbAkFiq3aA e ouça uma prévia mais detalhada dele aqui: http://soundcloud.com/sarabentesoficial/demo-sara-bentes-cd-invisivel e, para um show de lançamento, ainda buscamos apoios e parcerias. No ano que vem programamos também a produção  e lançamento de um DVD, projeto já aprovado na lei federal de incentivo à cultura, a lei Rouanet, projeto para o qual também buscamos apoio.

Por tudo isso, o que foi realizado este ano e o que será no próximo, deixo meu “muito obrigada”, com muito amor, a todos: admiradores do meu trabalho, colegas de trabalho, parceiros, participantes das promoções, seguidores, leitores do Boca. Lembrando que, neste fim de ano e sempre, vocês podem utilizar minhas músicas em seus vídeos no youtube, como abertura, fundo ou fechamento, em suas vídeo-mensagens de fim de ano e qualquer outra. Lembrando ainda, pra quem não sabe onde me achar:

Que a gente esteja junto por mais um ano e seguem meus votos pra todos nós:

Ufa! Foi um ano difícil, pra todos nós e pra nossa casa Terra.
Mas lá vem um outro ano, uma nova etapa, nova oportunidade.
Que a gente aproveite muito essa nova oportunidade,
Que não nos falte a esperança, os sonhos, e a motivação nossa de cada dia;
Que a gente não se acostume nem se anestesie com as notícias terríveis que nos bombardeiam todos os dias; 
Que os conflitos desse nosso planeta aparentemente enlouquecido não nos desanimem,
Mas que sejam motivação pra sermos cada vez melhores,
E pra sermos o bálsamo de alegria e amorosidade de que o mundo precisa;
Que toda essa loucura nos ensine e nos seja exemplo do que não ser;
E que a gente se esforce pra ser o exemplo do contrário:
exemplo de harmonia, de honestidade, de cuidado com o outro e com nosso meio ambiente;
lembrando que: Nosso mundo ideal e nosso exemplo começam em casa-
Que a gente assuma nossa luz;
E Que nunca se canse de mergulhar no mar infinito e deslumbrante de nós mesmos
Pra avaliar nossas atitudes e pensamentos, que é onde tudo começa;
Que a gente se cerque de bons amigos, boas energias e boa arte;
Que saiba dizer o sim e o não, e que saiba a hora de não dizer nada;
Que possa enxergar a beleza na dor
e extrair dela toda a luz e a alegria de estar crescendo;
Que 2015 seja o melhor ano de nossas vidas!
Um Feliz Natal e um maravilhoso ano novo!


Beijos da Sara ;)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Coisas estranhas que me fazem feliz!


Ouvir música ao contrário - tudo de bom, abre a mente!
Rock argentino - aaaaaamoooooooo!!!!!
Pastel de doce de leite com chocolate e pêssego - acho que na pastelaria só eu pedia esse sabor...
Tomar banho com 2 sabonetes, e ficar com um cheiro na direita e outro cheiro na esquerda - essa meu sobrinho de 7 anos na época me ensinou. Bom demais!!!
Os monstros de Monstrópoles - ai quando o mundo aprender com eles a liberdade da diversidade... Amo de paixão!
Conversar ouvindo uma língua e falando (ou tentando falar) outra - treina o cérebro, é excelente!
Brincar de sanduicheiche - isso é divertidoido!!
Estourar plástico bolha - delícia, delícia!
Estourar na boca ao mesmo tempo um tomatinho cereja e uma azeitona sem caroço - o céu...
Aquecimento vocal - é esquisito demais... Mas gostoso, e necessário (só tem que ter cuidado onde fazer pra não ser internado na camisa de força).
Cantar uma música com a letra de outra (funciona perfeitamente por exemplo com Asa Branca e Assum Preto) - experimente!); Aprendi com meu pai, e é o que mais gostamos de fazer pra enlouquecer as pessoas...
Estalinhoterapia; pense no motivo da sua raiva, concentre-se nele, jogue uns 2 ou 3 estalinhos ao mesmo tempo e grite junto; pra liberar a raiva é bem mais divertido que saco de areia pra socar; experimente, você não vai se arrepender!
Feijão, arroz e limão; os chefes que me desculpem, mas não tem coisa melhor que um belo limão espremido sobre um prato de arroz com feijão!
Coleção de gargalhadas; desde os 13 anos coleto gargalhadas de diferentes pessoas com meu gravadorzinho portátil, depois as reúno em um só arquivo e me escangalho de rir...
Conta pra mim aqui na seção de comentários que coisas estranhas te fazem feliz, pra que outras pessoas possam conhecer e, quem sabe, experimentar novas maneiras de encontrar alegria!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Num Picadeiro Sem Luz

Talvez já estivesse no sangue, em algum gene, em algum impulso do fundo da alma. Antes mesmo de aprender a andar, e ainda sem nada enxergar, eu pulava o berço. Ninguém sabia como, ninguém nunca viu; quando viam, eu já estava engatinhando no meio do quarto, feliz por ter me libertado. Ninguém viu também como, um belo dia da mesma época, fui parar no meio da escada sem corrimão que subia para o quintal. Sem falar das proezas, agora já maiorzinha e enxergando um pouco, em cima das árvores, brinquedos altos do parquinho da escola, camas elásticas e barras de exercícios nas quais minhas coleguinhas que praticavam ginástica olímpica, atividade que eu sonhava fazer mas não era recomendado, ensinavam-me a dar cambalhotas, pra frente e pra trás.


O tempo passou, esses impulsos aparentemente infantis foram adormecendo, ou se manifestando em forma de coragem pra sair pela vida. Mas a vontade de “voar, voar, subir, subir” continuava aqui, e quando assisti a um espetáculo de circo que envolvia pessoas com deficiência, em São Paulo, logo busquei meios de me incluir ali. Só que o grupo ainda não tinha ninguém com deficiência visual, e talvez tenha preferido não arriscar. Desconheço os motivos, mas as portas não se abriram. Anos depois, e agora vejo que na época certa, as portas de outro picadeiro se abriram pra mim. Despretensiosamente, e na verdade como um capricho, uma expressão de raiva transformada em movimentos, eu dançava numa mostra de artes no nordeste. Eu era convidada apenas para cantar, mas inventei de dançar também, uma dança do ventre diferente, onde a Izadora era minha parceira de dança, representando a bengala da tradicional dança árabe, bengala que simboliza a força feminina, a mulher guerreira. (link pro vídeo da dança: https://www.youtube.com/watch?v=c4doezLNhV8 ) Por esses sincronismos do universo, estava na mesma mostra uma antiga conhecida, a dançarina Viviane Macedo, que estava procurando uma pessoa cega pra completar um grupo num novo projeto de circo. Bom, foi assim então que fui parar no circo Crescer e Viver, no Rio de Janeiro, que montava o espetáculo “Belonging”, em parceria com a cia. inglesa de teatro e circo Graeae.

O primeiro dia no circo era tão carregado de alegria, expectativa e curiosidade que nem me lembro de muitos detalhes; lembro-me de explorar trapézio e lira e fazer mil perguntas sobre eles e não me interessar muito pelos malabares ou outras modalidades que não me tirariam do chão... E o mais importante que me lembro: naquele dia conheci meu primeiro mestre de aéreos, o Milton Lopes, um artista de Cabo Verde, simpático e talentosíssimo que já trabalhava com circo em Londres havia alguns anos e que tem uma deficiência em uma das mãos. Ele nem chegou a me ensinar tantos truques assim, pois logo teve que retornar a seu país, mas as experiências que ele compartilhava comigo e suas considerações filosóficas e poéticas sobre o circo, contadas sempre com sua voz serena, inspiraram-me segurança e coragem pra continuar e passar por cima dos impulsos de desistência, mesmo quando o primeiro calo das mãos arrebentou, quando a curva da perna roxeou como quem toma uma surra, quando todos os músculos do corpo doeram e o primeiro sinal de tendinite no ombro apareceu.

Certa noite eu sonhei que estava no circo e que era meu dia de batismo. Eu estava sentada numa plataforma muito alta e tinha de pular dali no meio do picadeiro, sem rede, sem colchão nem nada. Todos aguardavam e me olhavam lá de baixo. Como em todo sonho eu posso ver, eu olhava lá pra baixo e a altura me fez paralisar de medo, e eu fiquei ali, até acordar, apavorada. Naquela manhã fui pro circo e descobri que logo naquele dia todos os alunos deveriam mostrar um número aos diretores e a todo o grupo. Assustada, fui reclamar com o Milton, argumentando que eu ainda não tinha um número pronto, que ainda não tinha segurança pra executar sozinha o pouco que havia aprendido. E parece que meu sonho estava estampado em meu rosto quando ele respondeu: “Então apresente o que você tem e nos brinde com o seu medo.” Uma emoção muito forte me bateu, como sempre me bate de novo quando me lembro, e ali entendi: no circo ou na vida, o medo vai sempre andar junto da coragem, e a beleza está em ficar amiga dele, porque ele é humano, assim como nós.

Numa corrida contra o tempo, porque deveríamos adquirir condicionamento e experiência para deixar pronto um espetáculo em breve, passei pelas mãos de alguns outros queridos mestres (Lurian, Vânderson, Dadá, Tina, Sarinha, Nina), todos aprendendo na prática como ensinar performance aérea a uma pessoa que não enxerga. E, entre sustos, tombinhos, entraves, descobertas e muita persistência, fomos aprendendo todos juntos. Tocar com as mãos os professores e colegas em suas performances, além da experiência que eu já tinha com a dança, foi o que me possibilitou me desenvolver na lira. Ah, é claro, sem esquecer ainda do mais importante: acreditar, e ter ao meu redor pessoas que também acreditavam.

Eu teria história pra mais de metro pra contar a vocês sobre minha experiência no circo, além das histórias e ensinamentos que ainda vou viver ali, pois estou só começando! Pra fechar, deixo então pra vocês dois trechinhos do nosso espetáculo “Belonging” e uma breve tentativa de descrição da minha sensação na lira durante o espetáculo:


Quando dou o impulso com o pé no chão para fazer girar a lira e ela começa a subir, é o rompimento, com o chão, com o mundo real, com o concreto, porque agora a lira sobe, sobe, girando rápido, e continua subindo, até chegar numa altura suficiente. O giro constante e a força dele em meu corpo trazem a tontura. Do enjoo já me livrei previamente com uma homeopatia contra enjoo que tomo antes do espetáculo começar. A música parece rodar em torno. O chão não existe. A única coisa palpável e firme que tenho ao meu alcance é a lira, e agora somos só eu e ela. Começo meus movimentos, corpo e mente estão muito acesos, atentos. Minha vida está em minhas mãos. Não consigo pensar em nada. Já nem ouço a música, só sinto a música, sou a música, sou a lira, somos as três uma coisa só, interligadas e interdependentes; minha coreografia tem que acompanhar o tempo da música, meu corpo tem que acompanhar o giro da lira, e a lira é parte do meu corpo, pois não podemos perder o contato um só segundo, seja pelas mãos, pelas pernas, pelo tronco. A extrema concentração, um fluxo único de energia, a tontura, a ausência de chão e de luz, tudo isso me leva a um transe consciente de liberdade. Sim, é ser livre, é estar cara a cara com o medo e poder dizer na cara dele quem é que manda aqui. É não ter chão pra tatear ou tropeçar, é não ter frente pra me preocupar, já que estou girando e qualquer frente é frente, não tenho que me preocupar se estou de lado ou de costas para a plateia. É ser livre porque é dançar e voar ao mesmo tempo. É ser livre porque é ser e estar, integralmente, no aqui e no agora.  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mergulho

Pensando bem, nossa vida é um grande mergulho: a gente já começa mergulhando num corpo físico pra estar aqui nessa dimensão terrena. Depois, é uma sequência de mergulhos a perder de vista; mergulhamos em relacionamentos, mergulhamos em realidades que não são as nossas, mergulhamos em conhecimentos e informações, mergulhamos em novas experiências. Os convites ao mergulho estão por toda parte e a todo instante. O que diferencia o resultado de cada mergulho e o que nos permite avaliar se valeu a pena ou não, é a profundidade. E é sobre isso, a profundidade, que meus dias atuais têm me levado a refletir.

Nosso mundo é cada vez mais imediatista, não é novidade. E nessa pressa não dá tempo de se aprofundar em muita coisa; nem numa conversa, porque temos pressa pra chegar na próxima reunião de trabalho; nem em conhecer melhor o outro conversando mais, porque temos pressa do prazer; nem no sabor da refeição, porque nos alimentamos pensando nos milhões de afazeres que ainda temos que cumprir pra garantir o pão de cada dia, que, aliás, está cada vez mais concorrido neste planeta super povoado; nem eu devo me aprofundar muito num texto do blog, porque hoje em dia ninguém mais tem tempo de ler textos grandes na rede. Tudo bem, não temos tempo de nos aprofundar porque a luta pela sobrevivência é maior. Mas tem muita gente por aí arranjando tempo pra se aprofundar na história do personagem da novela, mas não pra se aprofundar na sua própria história; tem gente se aprofundando nos conhecimentos e no trabalho, e não se aprofundando no auto conhecimento e na conexão com o filho que fez; tem gente se aprofundando na vida alheia e nos julgamentos, e não se aprofundando em seu próprio aprimoramento; tem gente se aprofundando na piada e na brincadeira, e não se aprofundando na própria saúde e nos próprios conflitos. É muito fácil aceitarmos os convites de mergulho em águas que não as nossas. Não nos parece um contrassenso? Quando pensamos num mergulho pra dentro de nós mesmos, a imagem é de águas escuras e frias, e dá medo. Uma conversa séria cara a cara, uma auto análise, uma revisão de nosso comportamento, uma viagem mental no tempo até a raiz de determinado medo ou trauma, uma terapia; nossos mergulhos internos são tão raros que nossas águas são desconhecidas de nós mesmos; e, como é inerente ao ser humano temer o desconhecido, tememos nossas próprias águas.

Mergulhe, cada vez mais fundo; como um mergulhador curioso, você vai se surpreender com as belezas que vai encontrar no fundo do seu mar. Claro, sabemos que não é só de lindos e coloridos corais que vive o universo marítimo, mas você tem seu oxigênio, e pode respirar, profundamente, quando quiser, pra encarar as assustadoras feras do mar, tomar fôlego e continuar mergulhando, fundo. E, mais que o oxigênio, você tem algo vital e que nunca te faltará, capaz de ressignificar o seu passado e do qual depende o seu futuro: o seu agora. Respire-o. Mergulhe. Encante-se com o fundo de seu mar.

Release – Sara Bentes

Sara Bentes é cantora, compositora e atriz, premiada internacionalmente, com participações em festivais de arte nos Estados Unidos, Argentina e Itália; Sua experiência na música passeia pela mpb, samba, choro, música infantil e música internacional, em apresentações solo, com banda, com orquestra e coro. Em 2012, em parceria com amigos e com o pai, Sergio Bentes, Sara lançou seu primeiro CD infantil, intitulado “Faz Sempre Sol”, e em 2013 lançou o CD “Em Frente ao Planeta”, que leva mensagens e reflexões sobre sustentabilidade e amor ao planeta e ao ser humano. Sara foi uma das protagonistas do Projeto Percepções, expedição de três meses por 9 países da América do Sul, exibido semanalmente pelo programa Fantástico, rede Globo, de Novembro de 2005 a Fevereiro de 2006; além da participação no quadro Mulheres que Brilham no programa Raul Gil – SBT, e entrevista na novela América – Rede Globo, traz diversas participações em programas de TV, reportagens e documentários. Sara atua ainda na literatura, no circo e na dança, lançou em 2011 seu primeiro livro: “Fotografias Poéticas de um Olhar Viajante”, lançou em 2013 o livro de crônicas “Quando Botei a Boca no Mundo”; integra a Cia de teatro Mix Menestréis, dirigida por Deto Montenegro, e o projeto Teatro Cego, sob a direção de Paulo Palado (ambos em São Paulo); na dança Sara traz práticas na dança do ventre, dança contemporânea, ballet clássico e dança de salão. Além da carreira artística, Sara ministra palestras e é consultora de inclusão de pessoas com deficiência, sempre aliando sua arte a esta prática. 

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